"No movimento escola moderna não há manuais, os alunos podem ser professores e os professores é que têm TPC. E os pais que fiquem tranquilos: as metas definidas pelo ministério são sempre cumpridas." (ionline)
23 de setembro de 2011
O diário "i" escreve sobre o MEM
17 de setembro de 2011
«Tártaro»
"(...) Depois de ter juntado um grande ramo de flores diversas, ia para casa quando descobri, num fosso, um maravilhoso cardo, carmesim, em plena flor, daquela espécie que entre nós se chama «tártaro» e que, durante a sega da erva, é sempre contornado com cuidado e, caso seja cortado sem querer, é tirado do feno pelos gadanheiros para não picar as mãos. Apeteceu-me colher no cardo e pô-lo no meio do ramo. Desci ao fosso e, depois de enxotar um abelhão felpudo que adormecera deleitosamente agarrado à flor, comecei a partir o caule. Muito difícil, porém: a haste não só picava por todos os lados, mesmo através do lenço com que eu tinha envolvido a mão, mas era também tão duro que lutei com ele uns cinco minutos, pelo menos, rasgando os filamentos um a um. Quando, por fim, arranquei a flor, a haste estava toda em farrapos e a flor já não parecia fresca nem bonita. Além disso, o seu aspecto tosco e berrante não condizia com as ternas flores com que eu compusera o ramo. Lamentei ter destruído inutilmente uma flor que, no seu lugar, era tão linda. Deitei-a fora. «É impressionante a força, a energia daquela flor - pensei, recordando o que me custara arrancá-la. - Lutou muito pela vida e vendeu-a caro.» (...)"
Leão Tolstoi, em "Hadji-Murat"
(mais sobre o livro)
16 de setembro de 2011
Algumas palavras
Prefácio da 1ª edição (de 1922) do opúsculo "A felicidade de todos os seres na sociedade futura"
Algumas palavras
ACABO de ler, rapidamente, de um fôlego, as palavras que Gonçalves Corrêa pronunciou em Évora após o Congresso dos Rurais naquela cidade realizado. O seu autor é conhecido pelas suas ideias e pela desassombrada e tenaz propaganda que delas faz. Dispensa por isso uma longa apresentação. Basta dizer-se – e é isso que convém acentuar – que ele veio atraído à sedutora verdade dos ideais que perfilha mais pelas solicitações do seu coração, do que pelas necessidades da sua inteligência ou do seu estômago. Por isso Gonçalves Corrêa ataca a sociedade com mais lirismo que precisão.
Na Conferência que os leitores vão analisar, finda a rápida leitura destas palavras, encontrarão uma exaltação sentimental, quase mística, expandindo-se sem ódio na sua crítica ao presente, sem dúvida na sua visão sobre o futuro.
Em Gonçalves Corrêa o crente supera, em muito, o convicto. Se não se afasta da verdade, se não receia profundar a triste realidade da vida e a estúpida brutalidade das coisas, contudo e visão profética do futuro é mais vigorosa que a sua crítica ao presente e as sias alusões demolidoras ao passado. Para o conferente que venha analisando, o mal é considerado mais como uma incoerência da alma humana, um atrofiamento do raciocínio do que uma realidade viva e descoroçoadora. Os homens, terão um dia, um dia que certamente chegará, esclarecedor e luminoso, que expurgará de tudo o que os impede de viver em justiça e beleza.
Vem agora a propósito colocar uma pergunta que numa época de tão profundo egoísmo e embrutecimento como esta, preocupação muitos corações e muitas inteligências: serão responsáveis os ideais que Gonçalves Corrêa preconiza? Não hesito em responder afirmativamente.
Por muito que pese aos pessimistas e a alguns cépticos o anarquismo há-de escrever na história humana, talvez, as suas mais belas páginas. A ideia de que a felicidade aumenta entre os homens quando eles cessem de se explorar mutuamente, vai entrando, lentamente mas profundamente, no espírito dos contemporâneos. A queda que não é tolice, nem audácia, anunciar para breve duma civilização contrária aos interesses e aos destinos humanos será um grande passo sobre o futuro. A sociedade humana que tem vivido sobre o arbítrio de uma minoria, terá fatalmente de se orientar na ciência e guiar-se pelas suas leis. Mas, quando substituirá a ciência o empirismo, a justiça a iniquidade, a liberdade a tirania? Eis uma interrogação a que só poderão responder os próprios homens, Da sua vontade depende a alvorada duma vida livre. E bem fazem os que, como Gonçalves Corrêa, semeiam sem a preocupação da data em que o fruto amadureça e se possa colher.
Cristiano Lima
(Jornalista, Chefe de Redacção d'A Batalha (1927) e, posteriormente, Director do Diário de Notícias)
ACABO de ler, rapidamente, de um fôlego, as palavras que Gonçalves Corrêa pronunciou em Évora após o Congresso dos Rurais naquela cidade realizado. O seu autor é conhecido pelas suas ideias e pela desassombrada e tenaz propaganda que delas faz. Dispensa por isso uma longa apresentação. Basta dizer-se – e é isso que convém acentuar – que ele veio atraído à sedutora verdade dos ideais que perfilha mais pelas solicitações do seu coração, do que pelas necessidades da sua inteligência ou do seu estômago. Por isso Gonçalves Corrêa ataca a sociedade com mais lirismo que precisão.
Na Conferência que os leitores vão analisar, finda a rápida leitura destas palavras, encontrarão uma exaltação sentimental, quase mística, expandindo-se sem ódio na sua crítica ao presente, sem dúvida na sua visão sobre o futuro.
Em Gonçalves Corrêa o crente supera, em muito, o convicto. Se não se afasta da verdade, se não receia profundar a triste realidade da vida e a estúpida brutalidade das coisas, contudo e visão profética do futuro é mais vigorosa que a sua crítica ao presente e as sias alusões demolidoras ao passado. Para o conferente que venha analisando, o mal é considerado mais como uma incoerência da alma humana, um atrofiamento do raciocínio do que uma realidade viva e descoroçoadora. Os homens, terão um dia, um dia que certamente chegará, esclarecedor e luminoso, que expurgará de tudo o que os impede de viver em justiça e beleza.
Vem agora a propósito colocar uma pergunta que numa época de tão profundo egoísmo e embrutecimento como esta, preocupação muitos corações e muitas inteligências: serão responsáveis os ideais que Gonçalves Corrêa preconiza? Não hesito em responder afirmativamente.
Por muito que pese aos pessimistas e a alguns cépticos o anarquismo há-de escrever na história humana, talvez, as suas mais belas páginas. A ideia de que a felicidade aumenta entre os homens quando eles cessem de se explorar mutuamente, vai entrando, lentamente mas profundamente, no espírito dos contemporâneos. A queda que não é tolice, nem audácia, anunciar para breve duma civilização contrária aos interesses e aos destinos humanos será um grande passo sobre o futuro. A sociedade humana que tem vivido sobre o arbítrio de uma minoria, terá fatalmente de se orientar na ciência e guiar-se pelas suas leis. Mas, quando substituirá a ciência o empirismo, a justiça a iniquidade, a liberdade a tirania? Eis uma interrogação a que só poderão responder os próprios homens, Da sua vontade depende a alvorada duma vida livre. E bem fazem os que, como Gonçalves Corrêa, semeiam sem a preocupação da data em que o fruto amadureça e se possa colher.
Cristiano Lima
(Jornalista, Chefe de Redacção d'A Batalha (1927) e, posteriormente, Director do Diário de Notícias)
"A felicidade de todos os seres na sociedade futura"
Apenas ontem, por circunstâncias da vida, o livrinho "A felicidade de todos os seres na sociedade futura", transcrição da Conferência realizada por António Gonçalves Correia após o V Congresso dos Trabalhadores Rurais (Évora, Teatro Garcia Resende, 16/12/1922), me chegou às mãos.
Li-o de uma assentada e reforcei a minha percepção da singularidade, modernidade e acerto de grande parte das perspectivas do velho anarquista para Portugal, país que já então atravessava um tempo de grandes incertezas - como hoje... - , e que conduziriam menos de quatro anos depois ao golpe militar de 28/05/1926, acontecimento de triste memória para o país e que inaugurou 48 anos de ditadura e fascismo.
Acredito, sinceramente, que "A felicidade de todos os seres na sociedade futura" goza de plena actualidade. E a vontade que tenho é começar a mexer-me para ver o "opúsculo" novamente editado, de preferência em edição fac-símile, com notas explicativas, ou introdução de contextualização, não obstante não existir, temo bem, melhor explicação para o contexto do livro que o momento presente.
Vale a pena ler "A felicidade de todos os seres na sociedade futura", asseguro-vos.
Li-o de uma assentada e reforcei a minha percepção da singularidade, modernidade e acerto de grande parte das perspectivas do velho anarquista para Portugal, país que já então atravessava um tempo de grandes incertezas - como hoje... - , e que conduziriam menos de quatro anos depois ao golpe militar de 28/05/1926, acontecimento de triste memória para o país e que inaugurou 48 anos de ditadura e fascismo.
Acredito, sinceramente, que "A felicidade de todos os seres na sociedade futura" goza de plena actualidade. E a vontade que tenho é começar a mexer-me para ver o "opúsculo" novamente editado, de preferência em edição fac-símile, com notas explicativas, ou introdução de contextualização, não obstante não existir, temo bem, melhor explicação para o contexto do livro que o momento presente.
Vale a pena ler "A felicidade de todos os seres na sociedade futura", asseguro-vos.
15 de setembro de 2011
14 de setembro de 2011
Escolas Novas vs. escola actual
Na escola de liberdade que tinha sido a Faculdade de Letras do Porto, aprendeu o respeito pela liberdade absoluta do homem que pensou poder materializar-se no movimento das escolas novas. Para tanto diz-nos Agostinho "As escolas realmente novas, as de um Tolstoi, as de um Sanderson, as de um Washburne, as de um Lightward, as de um Faria de Vasconcelos, as de uma Armanda Alberto são apenas relâmpagos de esperança, logo abafadas pelas realidades, dos sistemas económicos (...) dos sistemas políticos (...) das religiões instituídas e convencionais (...). Escolas de visionários, de anarquistas e de loucos: escolas em que a iniciativa é da criança, a que o adulto assiste e em que aprende, ou reaprende a ter imaginação, a criticar, a se integrar no jogo como num trabalho ou no trabalho como num jogo, a sonhar considerando o sonho como actividade necessária e legítima, numa palavra a ter todas as qualidade ques perturbariam a calculada e, o que supõem, segura vida dos desembargos do paço ou dos presídios supremos".
extraído do texto "Agostinho da Silva - Um pedagogo contemporâneo português em busca de uma educação para o futuro", por Artur Manuel Sarmento Manso (Universidade do Minho)
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Simple Living Manifesto: 72 Ideas to Simplify Your Life
"A simple life has a different meaning and a different value for every person. For me, it means eliminating all but the essential, eschewing chaos for peace, and spending your time doing what’s important to you.
It means getting rid of many of the things you do so you can spend time with people you love and do the things you love. It means getting rid of the clutter so you are left with only that which gives you value.
However, getting to simplicity isn’t always a simple process. It’s a journey, not a destination, and it can often be a journey of two steps forward, and one backward.
If you’re interested in simplifying your life, this is a great starter’s guide (if you’re not interested, move on)."
(o resto aqui)
13 de setembro de 2011
A escola moderna, de Francisco Ferrer y Guardia
Em recente intervenção pública, o actual ministro da educação, Nuno Crato, colocava em relevo a relação entre educação e vencimentos, procurando apelar à vontade e motivação dos alunos com a perspectiva de uma vida desafogada em função de uma qualificação obtida.
Não obstante os dados demonstrarem que os trabalhadores por conta de outrém mais bem remunerados serem de facto pessoas em regra bem qualificadas, da mesma forma que as estatísticas ilustram a situação de dezenas de milhares de licenciados no desemprego e em ocupação precárias e mal pagas, é a relação estabelecida pelo ministro entre estudo e dinheiro que importa aqui relevar.
A escola de hoje é ante-câmara do mercado de trabalho, tendencialmente estruturada à imagem da economia local e nacional. Esta relação entre escola e economia não seria dramática se, e aqui sublinho o "se", os enormes problemas do país não revelassem todos os dias a desadequação da estrutura económica nacional. A escola tende a adaptar-se a um Portugal desadaptado das exigências do desenvolvimento.
Pior: a escola de hoje ensina aquilo que amanhã será profundamente obsoleto; os testes, os exames, as provas globais, testam desempenhos (mais do que conhecimentos e competências efectivas) que no futuro serão tão relevantes como são hoje as linhas de caminhos de ferro de Angola, decoradas pelos avós e bisavós da actual geração de crianças e adolescentes em formação. A "exigência" que é bandeira dos sucessivos governos - mais de uns do que doutros - e chavão do politicamente correcto nacional não produzirá frutos pela simples razão de que os frutos hoje cultivados estarão fora d'época no momento da colheita.
Não há sinal de modernidade na escola deste princípio do século.
É por isso com tristeza que vejo marginalizadas todas as abordagens científicas-pedagógicas portadoras de uma nova visão da educação, da escola e de todos aqueles que lhe dão vida. Abordagens como a de Francisco Ferrer y Guardia e da sua moderna "Escola Moderna", passe a redondância.
Não obstante os dados demonstrarem que os trabalhadores por conta de outrém mais bem remunerados serem de facto pessoas em regra bem qualificadas, da mesma forma que as estatísticas ilustram a situação de dezenas de milhares de licenciados no desemprego e em ocupação precárias e mal pagas, é a relação estabelecida pelo ministro entre estudo e dinheiro que importa aqui relevar.
A escola de hoje é ante-câmara do mercado de trabalho, tendencialmente estruturada à imagem da economia local e nacional. Esta relação entre escola e economia não seria dramática se, e aqui sublinho o "se", os enormes problemas do país não revelassem todos os dias a desadequação da estrutura económica nacional. A escola tende a adaptar-se a um Portugal desadaptado das exigências do desenvolvimento.
Pior: a escola de hoje ensina aquilo que amanhã será profundamente obsoleto; os testes, os exames, as provas globais, testam desempenhos (mais do que conhecimentos e competências efectivas) que no futuro serão tão relevantes como são hoje as linhas de caminhos de ferro de Angola, decoradas pelos avós e bisavós da actual geração de crianças e adolescentes em formação. A "exigência" que é bandeira dos sucessivos governos - mais de uns do que doutros - e chavão do politicamente correcto nacional não produzirá frutos pela simples razão de que os frutos hoje cultivados estarão fora d'época no momento da colheita.
Não há sinal de modernidade na escola deste princípio do século.
É por isso com tristeza que vejo marginalizadas todas as abordagens científicas-pedagógicas portadoras de uma nova visão da educação, da escola e de todos aqueles que lhe dão vida. Abordagens como a de Francisco Ferrer y Guardia e da sua moderna "Escola Moderna", passe a redondância.
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Viajando pelas terras do sul
Por razões que não têm relevância para o caso, resolvemos fazer o regresso das férias passadas no sotavento algarvio pelo alentejo interior, com passagem por Alcoutim, Mértola, Beja e Ferreira do Alentejo, a caminho da auto-estrada do sul.
A viagem incluiu almoço em Beja, onde já não ia há meia dúzia de anos, mas o que verdadeiramente me interessou na viagem foi a contemplação - tanta quanta é possível fazer enquanto se conduz um automóvel - da paisagem alentejana em permanente alteração, desde a saída do concelho de Alcoutim, zona de serra que nos leva à belíssima Mértola, até às planícies que ladeiam as aldeias, vilas e cidades da zona de Beja.
Não é fácil imaginar o Alentejo pelo qual Gonçalves Correia viajava, no cumprimento das importantes funções de caixeiro viajante, em representação de casas comerciais, povoações dentro. O Alentejo, que será ainda assim a região do país que menos se modificou no último século, já não é aquele que o velho anarquista percorreu, de lés a lés, por entre vivas à liberdade e improvisados comícios que o levaram à cadeia, com fama de "perigoso comunista".
Seja como for, fiquei - uma vez mais - com a sensação de que para compreender Gonçalves Correia, tão importante como ler os seus textos, estudar a sua vida, contextualizar a sua intervenção, é contemplar o Alentejo, a paisagem que verdadeiramente molda o jeito de ser daquela(s) gente(s). Ler a paisagem, integrando-a na história de vida dos alentejanos, do povo colectivamente considerado, dos seus filhos mais célebres, individualmente estudados.
A viagem incluiu almoço em Beja, onde já não ia há meia dúzia de anos, mas o que verdadeiramente me interessou na viagem foi a contemplação - tanta quanta é possível fazer enquanto se conduz um automóvel - da paisagem alentejana em permanente alteração, desde a saída do concelho de Alcoutim, zona de serra que nos leva à belíssima Mértola, até às planícies que ladeiam as aldeias, vilas e cidades da zona de Beja.
Não é fácil imaginar o Alentejo pelo qual Gonçalves Correia viajava, no cumprimento das importantes funções de caixeiro viajante, em representação de casas comerciais, povoações dentro. O Alentejo, que será ainda assim a região do país que menos se modificou no último século, já não é aquele que o velho anarquista percorreu, de lés a lés, por entre vivas à liberdade e improvisados comícios que o levaram à cadeia, com fama de "perigoso comunista".
Seja como for, fiquei - uma vez mais - com a sensação de que para compreender Gonçalves Correia, tão importante como ler os seus textos, estudar a sua vida, contextualizar a sua intervenção, é contemplar o Alentejo, a paisagem que verdadeiramente molda o jeito de ser daquela(s) gente(s). Ler a paisagem, integrando-a na história de vida dos alentejanos, do povo colectivamente considerado, dos seus filhos mais célebres, individualmente estudados.
12 de setembro de 2011
Guerra Junqueiro
"Uma caixa com várias centenas de manuscritos, que se acredita possam ser de Guerra Junqueiro (1850-1923), foi descoberta na colecção duma casa privada, no Norte do país."
(Público)
É sua, a citação utilizada por Gonçalves Correia no cabeçalho do seu periódico "A questão social", e diz assim: "Há mais luz nas 24 letras do alfabeto do que em todas as constelações do firmamento".
Do escritor, tolstoiano, que terá influenciado o pensamento de Gonçalves Correia, encontraram-se agora textos inéditos, que mais luz poderão trazer à sua obra, ao seu tempo e ao movimento em que tomou parte.
Trata-se de uma boa notícia.
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