29 de dezembro de 2011

Prefácio da 2ª edição de "A felicidade de todos os seres na sociedade futura" (Janeiro de 1932)

MUITAS pessoas, referindo-se à esgotante actividade de certos militantes do campo social, costumam dizer:

- Aquilo é brotoeja que lhe passa com o tempo. O cansaço não se demorará. Além disso, aquela gritaria é porque lhe não acenaram ainda o apetecido osso…

Infelizmente é assim mesmo, quanto a certos indivíduos, quanto a muitos indivíduos . Mas o leitor bem sabe que em tudo na vida há excepções. E eu, perdoem-me a vaidade, quero entrar no número delas.

O tempo vai passando (e não é tão pouco como a muitos pode parecer, pois já oiço por vezes, junto a mim, ao mesmo tempo repletas de consolo e desalentadoras, as palavras avô! avô! ) e eu continuo a ser atacado, talvez com mais fúria, pela brotoeja do meu anarquismo impenitente.

Cansaço é coisa que não conheço, supondo até que, a exemplo de certas actividades conhecidas, a minha entrada em anos não diminuirá o labor social em que sempre me empenhei, devendo redobrar, se isso é possível, da minha parte, o ataque enérgico a uma sociedade gangrenada, apodrecida até ao ponto de se poder considerar especialista na produção de dor.

Hoje como há 9 anos, quando fiz a minha primeira conferência com o Garcia de Resende repleto de burgueses e operários, mantenho intactas as minhas crenças libertárias e sinto que o mundo se aproxima mais do monumental palácio da Ventura, tão apetecido por nós.

A dor, é certo, continua a esmagar os corações. A alegria, é incontestável, não deixa de ser ainda um sonho lindo, uma realidade distante.

A fome impera macabramente. A injustiça mantém-se por enquanto, dominadora.

O erro persiste. A tuberculose espreita, de bocarra escancarada. A taberna entrega anualmente milhares de seres à penitenciária. A lei continua a oprimir os fracos. Os opulentos oprimem os humildes. Os escritores d’alma sifilítica, os Albinos Forjaz , derramam por sobre as almas o veneno infame da sua prosa maldita. É certo, é incontestável.

Mas repare, leitor – Não tem já visto, deslumbrado, após uma noite de inclemência e horrores, de angústias indizíveis, de tormentos mortificantes, um lindo nascer de sol radioso, que nos transporta a alma às luminosas regiões da felicidade? Pois será assim, o Amanhã da Humanidade.

Após a noite trágica que é o mundo burguês, onde impera a lei , há-de aparecer o dia deslumbrante e veludíneo onde imperará a Anarquia.

Beja, Janeiro de 1932
Gonçalves Corrêa

Um livro com referências a António Gonçalves Correia

A Letra Livre acaba de editar o livro "Os Caminhos da Anarquia. Uma Reflexão Sobre as Alternativas Libertárias em Tempos Sombrios". Um ensaio de reflexão sobre a história do anarquismo e as alternativas libertárias atuais no contexto da crise do capitalismo. Como diz Octavio Alberola no prefácio:
"Este é o paradoxo atual: quanto mais razões há para desacreditar o capitalismo - tanto pela sua irracionalidade e injusta voracidade especulativa como pelos catastróficos resultados ambientais das suas políticas desenvolvimentistas - mais ameaçador ele se manifesta e mais duradouro parece ser. Pelo contrário, apesar de serem mais numerosas e justas as razões dos trabalhadores para exigir melhorias, materiais e laborais, mais incapazes eles se mostram de exigi-las e mais parece afastar-se a perspectiva de uma verdadeira mudança social..."
Face a esta realidade o que querem, e podem, os anarquistas fazer. Este é certamente um debate atual.

"Os Caminhos da Anarquia. Uma Reflexão Sobre as Alternativas Libertárias em Tempos Sombrios"
M. Ricardo de Sousa
Letra Livre, Lisboa, 2011
105pp. 8 €

"A práxis libertária contemporânea deverá traduzir-se cada vez mais na crítica ao Poder, ao Estado, ao Capitalismo, mas também à Tecnologia e à própria ilusão de Progresso central na civilização Ocidental. Deve gerar, por outro lado, uma intervenção construtiva a partir da realidade local, na defesa da auto-organização e da democracia direta, que possa sustentar um amplo federalismo regional e internacional dos povos. Uma ação que passa pela criação de comunidades e cooperativas em que se concretizam formas autogestionárias de vida, produção e consumo, de forma a contribuir para uma cultura libertária que abra, desde já, novos espaços de liberdade, de autonomia e de criatividade para os que recusam o sistema dominante."