De Rui Mateus e Constantino Piçarra, este último autor de "Beja Republicana", descobri recentemente o título "Beja, Roteiros Republicanos", edição da Quidnovi com o patrocínio da CM Beja enquadrada nas comemorações do centenário da República celebrado em 2010.
Este volume inclui, para além de informação abundante sobre a Beja dos primeiros tempos da República, uma nota biográfica de António Gonçalves Correia (páginas 116 e 117). Também contém uma breve referência a Gonçalves Correia na página 42, a propósito da sua participação nas comemorações do 1º de Maio de 1914; na circunstância proferiu um discurso sobre "A educação e o comunismo", no Teatro Bejense, na Rua da Moeda.
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21 de setembro de 2012
18 de março de 2012
"A canção da chuva que não molha"
Um dos méritos dos blogues e daquilo a que se chama "redes sociais" é possibilitar a ligação entre pessoas que, de outra forma, dificilmente contactariam sobre projectos e interesses comuns. Pois bem, fomos recentemente contactados por alguém que conheceu pessoalmente António Gonçalves Correia, e que manifestou vivo interesse em partilhar um texto que ilustra - e de que maneira! - a amizade pessoal que mantinha com o velho anarquista alentejano.
Daniel Nobre Mendes, o autor do texto que se segue, e que tem como título "A canção da chuva que não molha", é autor de duas obras editadas pela Chiado Editores. A sua biografia resumida, bem como a informação acerca dos referidos livros, pode ser encontrada no site da própria editora. Do mesmo autor podem ser consultados alguns artigos digitalizados, no site da biblioteca municipal da cidade de Beja.
Ao Daniel Nobre Mendes agradecemos profundamente a generosidade da partilha. Aqui fica, "A canção da chuva que não molha":
A CANÇÃO DA CHUVA QUE NÃO MOLHA
Minhas Senhoras e Senhores,
Meus extremosos amigos!
Ao fazer a caracterização afectiva de António Gonçalves Correia e é apenas isso que pretendo e ou tento conseguir fazer, tento também transmitir-vos algo de importante sobre Gonçalves Correia e outra coisa me não determina que não seja a de referir essa figura impoluta que continua a percorrer o imaginário Alentejano e que marca e assinala um elo entre nós e o fim do século dezanove, neste país, país mentalmente pobre, economicamente depauperado, politicamente trapalhão, mentalmente atrasado, oligofrénico de raiz, repito que outra coisa me não move a não ser a de dar um testemunho vivo, vertido num depoimento sincero, autêntico e personalizado.
O enquadramento histórico anarquista desta figura está incompletamente feito mas cheio de boas vontades. É preciso que os investigadores interessados o façam de um modo mais cuidadoso e feliz pois o que há, não basta. E sobre este assunto não vou dizer mais seja o que for…
Que me desculpem!
Sou e ainda continuo a ser um apaixonado - até ao meu fim físico, mental, moral e… "imoral", porque não, meus bons amigos?! Eu também sou um imoral!
António Gonçalves Correia, por tudo, foi um "imoral" — um imoral porque desde os seus 25 anos disse peremptória, meritória e delimitadamente no tempo um vigoroso “Não” à bandalheira criminosa da 1ª República, e definitivamente á República, ao seu divórcio total com o País, às intermitentes guerras civis, à repressão sobre os trabalhadores rurais e citadinos, às prisões e a tudo o que chicoteava e banalizava a liberdade que é a mãe sagrada do que existe de mais belo e sublime que continua, apesar e para além de tudo, a voar na magnifica envergadura possante das asas de qualquer avezinha pura, lépida e sem fronteiras pelos magníficos céus do nosso planeta mal tratado— como um estupendo e extraordinário sonho, a rodopiar, a volitar, sem fronteiras que o detenham!
Imoral, quando os rurais empobrecidos iam ao Presidente da Câmara pedir um agasalho, pão e trabalho e este, em troca, chamava as bestas da Guarda Nacional Republicana para os reprimir, sim imoral, imoralíssimo porque, ao lado da miséria dos ganhões roubados se batia até o sangue correr dos vasos rotos daquela gente trucidada, lembram-se?! Ah! Lembram-se deste Alentejo latifundiário, das jornas sem horário e do pão negro, lembram-se da repressão em nome da Pátria, de Deus e da Família, lembram-se? Gonçalves Correia estava lá! Estava lá pela justiça e pela paz, em nome da não agressão, pelo trabalho, pelo pão e pela justiça!
Foi um imoral porque foi um libertário e um libertário dorme na "Luz", acorda no "Clarão" e, quando o matam, ressuscita no antisalazarismo para continuar vivo na resistência ao criminoso ditador, o capador deste País, o rato de esgoto, como diz Jorge de Sena no seu livro”Rever Portugal” e voltar a colaborar com republicanos e democratas ao longo e em todos os instantes da duração do “Estado Novo”— até à sua morte física.
Foi imoral porque fugiu ao comum da banalidade portuguesa sócio-doméstica e porque perverteu normas de comportamento público!
Foi imoral Gonçalves Correia porque amava as mulheres, as crianças, a vida, os companheiros, a natureza, a música, toda a Arte e toda a Ciência!
Foi imoral Gonçalves Correia porque, humilde, ganhou o seu pão e bebeu em Kropotkine, Bakunine e Tolstoi ou em tantos outros da sua e da nossa época a preparação que sempre o animou!
Foi imoral porque se antecipou às posições ecológicas hodiernas, à igualdade feminina, ao combate anti-bélico, à exclusão social, à miséria, à fome, à doença, pugnando sempre pelo anti-poder político trucidante e destruidor dos corpos e das consciências humanas!
Imoral se tornou quando jurou e pela inocência ofendida e desvalida se bateu, escrevendo e condenando o coquetismo das futilidades e inutilidades femininas:
"Ao ver-te assim, esplendorosa,
Toda risonha e gentil
De caracóis reluzentes,
Comparei-te a uma rosa
Em pleno e formoso Abril.
Mas ao teu lado, mulher
Vi uma criancinha
Toda rota e esfarrapada,
Filha dum pobre qualquer.
E pensei então que tinha,
Ante a triste abandonada,
O dever de lutar sempre
A favor da criancinha
Toda rota e esfarrapada!"
Mas imoral também porque, criador de Deus à sua medida e maneira, criador de um deus antropomórfico, não poupou a Igreja Católica, derribando mentiras, desmascarando sotainas, varrendo padreadas hipócritas, bandos de negros corvos, em nome do seu Cristianismo anarquista, do seu Franciscanismo abrangente ao jeito de uma religiosidade universal libertária, panteísta e laica.
Assim, Gonçalves Correia, escreveu:
"Se deus está na flor que encanta e que seduz,
No seu filigranado, eterna maravilha,
Na pétala graciosa que à vida nos conduz,
Na estrela misteriosa que nos encanta e brilha,
Eu, admirador do grande Artista,
Confesso não me arrepender
Se me disser deísta!
Porém, se é o tal Deus da madre igreja,
O cruel Deus papão das sacristias,
O Deus que sobre nós, fero, despeja
Trabuzanas e raios todos os dias;
Se é esse o Deus que manda as trovoadas,
Que ajuda o padre lorpa e o sacrista
E deixa casas pobres e arrasadas,
Então, caros irmãos, não sou deísta!"
Imoral foi porque não se poupou a um autoditatismo continuado e sério, sem tréguas, quantas vezes com prejuízo familiar e do seu próprio descanso pessoal num País iletrado, torcionado e triste!
Ah! imoral também foi aquele homem porque aos filhos chamou EMILIO, FERRER, LUZ, VICTOR HUGO, SAUDADE, CELESTE, NATÉRCIA, GERMINAL.
Que insólito! Que maravilha! Que acutilante para um país das Maria, dos António, dos José apodrecidos e dos autoritarismos assassinos numa terra dominada a verter a supuração sifilítica contaminante das suas chagas abertas. Mas o defeito não era nem o de se ser Maria nem António nem José. O crime, esse, era e foi o de se não permitir que nem as Maria nem os António nem os José fossem gente - gente feliz e realizada neste País das sarjetas e latrinas oficiais!
Perverso, subversivo e imoral também, porque tinha as barbas grandes e o cabelo pelas costas e metia medo às criancinhas da minha cidade aparvalhada e triste, para as violar...
Imoral, Gonçalves correia foi porque trabalhou no mourejo do seu pão, não foi delator mas um amigo para a vida inteira, ao lado de todas as dores, convergente em todas as sedes, bálsamo em todas as feridas!
Meus bons amigos
Falar de Gonçalves Correia é muito fácil e nada dele dizer é o que se torna bem mais difícil. Por essa razão não digo seja o que for sobre esta figura impar que encheu a minha meninice, estimou a minha adolescência e amparou e educou o pequeno homem que pretendi vir a ser.
Não digo nada. Apenas sinto!
Aconteceu assim - eu conto, afinal conto porque, simplesmente, digo o que sinto e sinto o que digo mas com o coração nas vossas mãos, sim, nas vossas mãos, e sem falar.
E nada mais.
Apenas repito o que sinto dentro do silêncio respeitoso das palavras, dessas palavras que, por serem importantes, foram feitas a partir da magia daqueles a quem nos queremos referir na mutez da nossa interioridade secreta e que vão continuar a ser as referências e os valores pelos quais pautamos o nosso caminho!
Senhoras e senhores
Quando fui bebé esse homem bom pegou-me ao colo e acarinhou-me.
As nossas famílias eram amigas e para ele eu fui mais um filhote-neto!
Quando cresci fui para a escola e sempre que me encontrava fazia-me uma festinha na cabeça. Ai! Que delicia! Que coisa boa e linda para um "puto" tenro…
Cresci mais. Ele envelhecia…Tínhamos uma diferença de idade de cinquenta e cinco anos - um diferencial apropriado para mim. Para ele não…
Ora, na Praça da República havia, por volta dos meus catorze anos, um escritório que acudia pelo nome de "Pucarinha", de um velho republicano mordaz e satírico, o senhor Rosa e lá se reuniam muitos "reviralhistas", entre os quais o respeitado libertário, de barbas e cabelos patriarcais e eu também já lá tinha cabimento pois todos gostavam de mim e me conheciam. Mas eu entendia pouco…
A "Pucarinha" foi um lugar de resistência, conspiração, aprendizagem e convívio. Mas também de perseguição fascista.
Gonçalves Correia, quando espiguei mais, aí pelos dezoito anos, levava-me para a sua casa, à Rua Tenente Valadim e aí, sentados, falava-me dos seus heróis, dos seus livros e dos seus velhos e maravilhosos sonhos acratas, do seu mundo diferente, de paz universal, de amor global, de mutualidade, de harmonia e de cooperação. Muitas vezes comíamos. Era tão bom estar com aquele velho ternurento que, pela primeira vez me falou do Tenente Valadim que dá o nome à rua ... mas de outros, também me falou., que nada tinham a ver com Valadim, o "herói" de Moçambique…Que porcaria…
Muitos livros se leram da sua biblioteca Anarquista. Muitos poemas decorei das suas modestas estantes, muito afecto recebi daqueles braços carinhosos e muitos apertos senti, nas minhas, daquelas mãos fortes, amigas e justas, enrugadas, é certo, mas limpas para agarrar a luz, lavadas para segurar o vento, cristalinas para irisar o sonho!
Depois vieram os tempos da Biblioteca Municipal, na Praça da República, antiga cadeia comarcã e dizia-me, serenamente afirmando-me que as cadeias deviam ser transformadas em bibliotecas para a educação dos povos. Que sonho fabuloso, que luz atractiva puxava aquela borboleta bela, de asas abertas, teimosamente voando para os paramos do seu ideário de libertação e de bondade?! Não sei responder nada sobre a bondade "subvertida" e que "subvertia" do meu irmão mais velho, Gonçalves Coreia, tão pequeno ainda era, tão pequeno permaneço e continuo a ser e sou!
A Biblioteca Municipal desta minha terra, Beja, foi um lugar de convívio, de manifestação de descontentamentos, de várias cumplicidades e de preparação...
Rendo homenagem ao Zé Martins, detesto a memória do Senhor Canelas e não peço desculpa!...
Também lembro as noites cálidas de verão na Praça da República quando o café central punha as mesas no tabuleiro empedrado, ao ar livre, e nelas, em cavaqueio amigo mas aceso, se sentavam, quase sem diferenças, comunistas, republicanos, anarquistas, democratas e até ciganos, lembro Gonçalves Correia a ler o jornal “República” e em frente, num banco sentados, o padre Tavares, O Deão Delgado, o Cónego Rainho e…o comandante da Legião Portuguesa…Espantoso aquilo…
Ali se representavam as forças vivas da cidade mas o que de mais chocante havia eram dois bufos sentados ao lado do velho marco do correio a quem Gonçalves Correia não perdoava, mandando piadas jocosas que eles não entendiam nunca porque em fósseis empedernidos se tinham tornado e se manifestavam na brutidão do delate!
Como escreveu um dia Fernando Pessoa e eu repito com as mãos no coração, no vosso e no meu coração:
"Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar
Hei-de passar na cidade
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar"
O meu belo amigo, o meu velho amigo, o meu estimado avô, o meu amor, tinha no olhar doce as cintilações de um Sol rutilante e na palavra o timbre convincente de um apóstolo santo que tudo é capaz de dar para que outras mulheres e homens possam ser felizes e livres no planeta que existe, o único, por enquanto viável de continuar a ser habitado.
Foi Anarquista, amava a verdade, amava as pessoas, amava a Liberdade e morreu pela Liberdade.
Nunca se deixou amordaçar, nunca arrastou pelas calçadas da subserviência os tirantes férreos da escravidão mental e afectiva.
Mas, acima de tudo, foi ingénuo, credulamente ingénuo, uma criança inocente - foi o homem mais puro que conheci, foi o homem mais humano que conheci e um dos mais carismáticos que atravessaram toda a minha vida!
Hoje é uma saudade que guardo no meu coração - ele e Ferrer, Francisco Ferrer "hijo mio", o grande educador espanhol fuzilado no castelo de Montjuich ensanguentado, em Barcelona, Espanha, talvez no mundo inteiro onde se grite e lute ainda pela bondade, pelo amor e pela Liberdade contra todas as formas tirânicas de abate humano!
Eu grito aqui! Eu luto aqui!
Mas também canto aqui - canto aqui essa canção mágica da chuva que não molha os olhos porque a Liberdade pode muito mais do que as grilhetas e soa sempre mais alto do que os mais dolorosos prantos abertos!!!
Muito obrigado
Daniel Nobre Mendes
Daniel Nobre Mendes, o autor do texto que se segue, e que tem como título "A canção da chuva que não molha", é autor de duas obras editadas pela Chiado Editores. A sua biografia resumida, bem como a informação acerca dos referidos livros, pode ser encontrada no site da própria editora. Do mesmo autor podem ser consultados alguns artigos digitalizados, no site da biblioteca municipal da cidade de Beja.
Ao Daniel Nobre Mendes agradecemos profundamente a generosidade da partilha. Aqui fica, "A canção da chuva que não molha":
A CANÇÃO DA CHUVA QUE NÃO MOLHA
Minhas Senhoras e Senhores,
Meus extremosos amigos!
Ao fazer a caracterização afectiva de António Gonçalves Correia e é apenas isso que pretendo e ou tento conseguir fazer, tento também transmitir-vos algo de importante sobre Gonçalves Correia e outra coisa me não determina que não seja a de referir essa figura impoluta que continua a percorrer o imaginário Alentejano e que marca e assinala um elo entre nós e o fim do século dezanove, neste país, país mentalmente pobre, economicamente depauperado, politicamente trapalhão, mentalmente atrasado, oligofrénico de raiz, repito que outra coisa me não move a não ser a de dar um testemunho vivo, vertido num depoimento sincero, autêntico e personalizado.
O enquadramento histórico anarquista desta figura está incompletamente feito mas cheio de boas vontades. É preciso que os investigadores interessados o façam de um modo mais cuidadoso e feliz pois o que há, não basta. E sobre este assunto não vou dizer mais seja o que for…
Que me desculpem!
Sou e ainda continuo a ser um apaixonado - até ao meu fim físico, mental, moral e… "imoral", porque não, meus bons amigos?! Eu também sou um imoral!
António Gonçalves Correia, por tudo, foi um "imoral" — um imoral porque desde os seus 25 anos disse peremptória, meritória e delimitadamente no tempo um vigoroso “Não” à bandalheira criminosa da 1ª República, e definitivamente á República, ao seu divórcio total com o País, às intermitentes guerras civis, à repressão sobre os trabalhadores rurais e citadinos, às prisões e a tudo o que chicoteava e banalizava a liberdade que é a mãe sagrada do que existe de mais belo e sublime que continua, apesar e para além de tudo, a voar na magnifica envergadura possante das asas de qualquer avezinha pura, lépida e sem fronteiras pelos magníficos céus do nosso planeta mal tratado— como um estupendo e extraordinário sonho, a rodopiar, a volitar, sem fronteiras que o detenham!
Imoral, quando os rurais empobrecidos iam ao Presidente da Câmara pedir um agasalho, pão e trabalho e este, em troca, chamava as bestas da Guarda Nacional Republicana para os reprimir, sim imoral, imoralíssimo porque, ao lado da miséria dos ganhões roubados se batia até o sangue correr dos vasos rotos daquela gente trucidada, lembram-se?! Ah! Lembram-se deste Alentejo latifundiário, das jornas sem horário e do pão negro, lembram-se da repressão em nome da Pátria, de Deus e da Família, lembram-se? Gonçalves Correia estava lá! Estava lá pela justiça e pela paz, em nome da não agressão, pelo trabalho, pelo pão e pela justiça!
Foi um imoral porque foi um libertário e um libertário dorme na "Luz", acorda no "Clarão" e, quando o matam, ressuscita no antisalazarismo para continuar vivo na resistência ao criminoso ditador, o capador deste País, o rato de esgoto, como diz Jorge de Sena no seu livro”Rever Portugal” e voltar a colaborar com republicanos e democratas ao longo e em todos os instantes da duração do “Estado Novo”— até à sua morte física.
Foi imoral porque fugiu ao comum da banalidade portuguesa sócio-doméstica e porque perverteu normas de comportamento público!
Foi imoral Gonçalves Correia porque amava as mulheres, as crianças, a vida, os companheiros, a natureza, a música, toda a Arte e toda a Ciência!
Foi imoral Gonçalves Correia porque, humilde, ganhou o seu pão e bebeu em Kropotkine, Bakunine e Tolstoi ou em tantos outros da sua e da nossa época a preparação que sempre o animou!
Foi imoral porque se antecipou às posições ecológicas hodiernas, à igualdade feminina, ao combate anti-bélico, à exclusão social, à miséria, à fome, à doença, pugnando sempre pelo anti-poder político trucidante e destruidor dos corpos e das consciências humanas!
Imoral se tornou quando jurou e pela inocência ofendida e desvalida se bateu, escrevendo e condenando o coquetismo das futilidades e inutilidades femininas:
"Ao ver-te assim, esplendorosa,
Toda risonha e gentil
De caracóis reluzentes,
Comparei-te a uma rosa
Em pleno e formoso Abril.
Mas ao teu lado, mulher
Vi uma criancinha
Toda rota e esfarrapada,
Filha dum pobre qualquer.
E pensei então que tinha,
Ante a triste abandonada,
O dever de lutar sempre
A favor da criancinha
Toda rota e esfarrapada!"
Mas imoral também porque, criador de Deus à sua medida e maneira, criador de um deus antropomórfico, não poupou a Igreja Católica, derribando mentiras, desmascarando sotainas, varrendo padreadas hipócritas, bandos de negros corvos, em nome do seu Cristianismo anarquista, do seu Franciscanismo abrangente ao jeito de uma religiosidade universal libertária, panteísta e laica.
Assim, Gonçalves Correia, escreveu:
"Se deus está na flor que encanta e que seduz,
No seu filigranado, eterna maravilha,
Na pétala graciosa que à vida nos conduz,
Na estrela misteriosa que nos encanta e brilha,
Eu, admirador do grande Artista,
Confesso não me arrepender
Se me disser deísta!
Porém, se é o tal Deus da madre igreja,
O cruel Deus papão das sacristias,
O Deus que sobre nós, fero, despeja
Trabuzanas e raios todos os dias;
Se é esse o Deus que manda as trovoadas,
Que ajuda o padre lorpa e o sacrista
E deixa casas pobres e arrasadas,
Então, caros irmãos, não sou deísta!"
Imoral foi porque não se poupou a um autoditatismo continuado e sério, sem tréguas, quantas vezes com prejuízo familiar e do seu próprio descanso pessoal num País iletrado, torcionado e triste!
Ah! imoral também foi aquele homem porque aos filhos chamou EMILIO, FERRER, LUZ, VICTOR HUGO, SAUDADE, CELESTE, NATÉRCIA, GERMINAL.
Que insólito! Que maravilha! Que acutilante para um país das Maria, dos António, dos José apodrecidos e dos autoritarismos assassinos numa terra dominada a verter a supuração sifilítica contaminante das suas chagas abertas. Mas o defeito não era nem o de se ser Maria nem António nem José. O crime, esse, era e foi o de se não permitir que nem as Maria nem os António nem os José fossem gente - gente feliz e realizada neste País das sarjetas e latrinas oficiais!
Perverso, subversivo e imoral também, porque tinha as barbas grandes e o cabelo pelas costas e metia medo às criancinhas da minha cidade aparvalhada e triste, para as violar...
Imoral, Gonçalves correia foi porque trabalhou no mourejo do seu pão, não foi delator mas um amigo para a vida inteira, ao lado de todas as dores, convergente em todas as sedes, bálsamo em todas as feridas!
Meus bons amigos
Falar de Gonçalves Correia é muito fácil e nada dele dizer é o que se torna bem mais difícil. Por essa razão não digo seja o que for sobre esta figura impar que encheu a minha meninice, estimou a minha adolescência e amparou e educou o pequeno homem que pretendi vir a ser.
Não digo nada. Apenas sinto!
Aconteceu assim - eu conto, afinal conto porque, simplesmente, digo o que sinto e sinto o que digo mas com o coração nas vossas mãos, sim, nas vossas mãos, e sem falar.
E nada mais.
Apenas repito o que sinto dentro do silêncio respeitoso das palavras, dessas palavras que, por serem importantes, foram feitas a partir da magia daqueles a quem nos queremos referir na mutez da nossa interioridade secreta e que vão continuar a ser as referências e os valores pelos quais pautamos o nosso caminho!
Senhoras e senhores
Quando fui bebé esse homem bom pegou-me ao colo e acarinhou-me.
As nossas famílias eram amigas e para ele eu fui mais um filhote-neto!
Quando cresci fui para a escola e sempre que me encontrava fazia-me uma festinha na cabeça. Ai! Que delicia! Que coisa boa e linda para um "puto" tenro…
Cresci mais. Ele envelhecia…Tínhamos uma diferença de idade de cinquenta e cinco anos - um diferencial apropriado para mim. Para ele não…
Ora, na Praça da República havia, por volta dos meus catorze anos, um escritório que acudia pelo nome de "Pucarinha", de um velho republicano mordaz e satírico, o senhor Rosa e lá se reuniam muitos "reviralhistas", entre os quais o respeitado libertário, de barbas e cabelos patriarcais e eu também já lá tinha cabimento pois todos gostavam de mim e me conheciam. Mas eu entendia pouco…
A "Pucarinha" foi um lugar de resistência, conspiração, aprendizagem e convívio. Mas também de perseguição fascista.
Gonçalves Correia, quando espiguei mais, aí pelos dezoito anos, levava-me para a sua casa, à Rua Tenente Valadim e aí, sentados, falava-me dos seus heróis, dos seus livros e dos seus velhos e maravilhosos sonhos acratas, do seu mundo diferente, de paz universal, de amor global, de mutualidade, de harmonia e de cooperação. Muitas vezes comíamos. Era tão bom estar com aquele velho ternurento que, pela primeira vez me falou do Tenente Valadim que dá o nome à rua ... mas de outros, também me falou., que nada tinham a ver com Valadim, o "herói" de Moçambique…Que porcaria…
Muitos livros se leram da sua biblioteca Anarquista. Muitos poemas decorei das suas modestas estantes, muito afecto recebi daqueles braços carinhosos e muitos apertos senti, nas minhas, daquelas mãos fortes, amigas e justas, enrugadas, é certo, mas limpas para agarrar a luz, lavadas para segurar o vento, cristalinas para irisar o sonho!
Depois vieram os tempos da Biblioteca Municipal, na Praça da República, antiga cadeia comarcã e dizia-me, serenamente afirmando-me que as cadeias deviam ser transformadas em bibliotecas para a educação dos povos. Que sonho fabuloso, que luz atractiva puxava aquela borboleta bela, de asas abertas, teimosamente voando para os paramos do seu ideário de libertação e de bondade?! Não sei responder nada sobre a bondade "subvertida" e que "subvertia" do meu irmão mais velho, Gonçalves Coreia, tão pequeno ainda era, tão pequeno permaneço e continuo a ser e sou!
A Biblioteca Municipal desta minha terra, Beja, foi um lugar de convívio, de manifestação de descontentamentos, de várias cumplicidades e de preparação...
Rendo homenagem ao Zé Martins, detesto a memória do Senhor Canelas e não peço desculpa!...
Também lembro as noites cálidas de verão na Praça da República quando o café central punha as mesas no tabuleiro empedrado, ao ar livre, e nelas, em cavaqueio amigo mas aceso, se sentavam, quase sem diferenças, comunistas, republicanos, anarquistas, democratas e até ciganos, lembro Gonçalves Correia a ler o jornal “República” e em frente, num banco sentados, o padre Tavares, O Deão Delgado, o Cónego Rainho e…o comandante da Legião Portuguesa…Espantoso aquilo…
Ali se representavam as forças vivas da cidade mas o que de mais chocante havia eram dois bufos sentados ao lado do velho marco do correio a quem Gonçalves Correia não perdoava, mandando piadas jocosas que eles não entendiam nunca porque em fósseis empedernidos se tinham tornado e se manifestavam na brutidão do delate!
Como escreveu um dia Fernando Pessoa e eu repito com as mãos no coração, no vosso e no meu coração:
"Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar
Hei-de passar na cidade
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar"
O meu belo amigo, o meu velho amigo, o meu estimado avô, o meu amor, tinha no olhar doce as cintilações de um Sol rutilante e na palavra o timbre convincente de um apóstolo santo que tudo é capaz de dar para que outras mulheres e homens possam ser felizes e livres no planeta que existe, o único, por enquanto viável de continuar a ser habitado.
Foi Anarquista, amava a verdade, amava as pessoas, amava a Liberdade e morreu pela Liberdade.
Nunca se deixou amordaçar, nunca arrastou pelas calçadas da subserviência os tirantes férreos da escravidão mental e afectiva.
Mas, acima de tudo, foi ingénuo, credulamente ingénuo, uma criança inocente - foi o homem mais puro que conheci, foi o homem mais humano que conheci e um dos mais carismáticos que atravessaram toda a minha vida!
Hoje é uma saudade que guardo no meu coração - ele e Ferrer, Francisco Ferrer "hijo mio", o grande educador espanhol fuzilado no castelo de Montjuich ensanguentado, em Barcelona, Espanha, talvez no mundo inteiro onde se grite e lute ainda pela bondade, pelo amor e pela Liberdade contra todas as formas tirânicas de abate humano!
Eu grito aqui! Eu luto aqui!
Mas também canto aqui - canto aqui essa canção mágica da chuva que não molha os olhos porque a Liberdade pode muito mais do que as grilhetas e soa sempre mais alto do que os mais dolorosos prantos abertos!!!
Muito obrigado
Daniel Nobre Mendes
14 de junho de 2011
9 de abril de 2011
Síntese biográfica de Gonçalves Correia
(do livro "A oposição libertária em Portugal, 1939-1974", de Edgar Rodrigues)
"Natural de Beja, chegou ao anarquismo para ficar.
Gosta de reunir-se, de falar e tinha "sonhos" de alcance impossível.
Gostava de comprar pássaros engaiolados para soltá-los, vê-los voar livremente, gorgitar de alegria.
Na sua caminhada como propagandista do anarquismo, escrevia e falava como um pregador que tenta convencer os seus paroquianos.
Fazia palestras para os camponeses a quem dedicou folhetos, tais como Estreia de um crente e deles merecia grande consideração e estima.
Mais tarde comprou uma grande área de terras e tentou por em prática a Comuna da Luz em Vale de Cavalos, em Odemira. Mas a ideia não foi avante tantos foram os obstáculos que se lhe opuseram.
Esses tipos de iniciativas têm sempre vários tipos de inimigos, mas um dos maiores é o próprio homem que delas participar. Preso a atavismos, a preconceitos e a hierarquias subjectivas, não tarda a desentender-se. Os "70 pecados capitais" herdados em arquétipos e absorvidos numa convivências diária com as outras vítimas da educação burguesa, condicionam o homem de tal forma que o seu "reaccionário interior" acaba por empurrá-lo para divergências fúteis mas ruinosas.
O anarquismo exige muito do ser humano e a sociedade burguesia e clerical, mercantilista e bélica, em que vivemos, de interesses e lucros, não nos prepara para sermos livres, vivermos livres, lado-a-lado com os nossos semelhantes. A liberdade externa só, não é o suficiente, e a interna custa a adquirir , é algo a ser cultivado com o tempo, o convívio, uma reeducação permanente, tal como a saúde e a vida.
Gonçalves Correia colaborava na imprensa com trabalhos curtos, sem conteúdo prático, entretanto acreditava na revolução social para breve. Morreu acreditando nisso."
"Natural de Beja, chegou ao anarquismo para ficar.
Gosta de reunir-se, de falar e tinha "sonhos" de alcance impossível.
Gostava de comprar pássaros engaiolados para soltá-los, vê-los voar livremente, gorgitar de alegria.
Na sua caminhada como propagandista do anarquismo, escrevia e falava como um pregador que tenta convencer os seus paroquianos.
Fazia palestras para os camponeses a quem dedicou folhetos, tais como Estreia de um crente e deles merecia grande consideração e estima.
Mais tarde comprou uma grande área de terras e tentou por em prática a Comuna da Luz em Vale de Cavalos, em Odemira. Mas a ideia não foi avante tantos foram os obstáculos que se lhe opuseram.
Esses tipos de iniciativas têm sempre vários tipos de inimigos, mas um dos maiores é o próprio homem que delas participar. Preso a atavismos, a preconceitos e a hierarquias subjectivas, não tarda a desentender-se. Os "70 pecados capitais" herdados em arquétipos e absorvidos numa convivências diária com as outras vítimas da educação burguesa, condicionam o homem de tal forma que o seu "reaccionário interior" acaba por empurrá-lo para divergências fúteis mas ruinosas.
O anarquismo exige muito do ser humano e a sociedade burguesia e clerical, mercantilista e bélica, em que vivemos, de interesses e lucros, não nos prepara para sermos livres, vivermos livres, lado-a-lado com os nossos semelhantes. A liberdade externa só, não é o suficiente, e a interna custa a adquirir , é algo a ser cultivado com o tempo, o convívio, uma reeducação permanente, tal como a saúde e a vida.
Gonçalves Correia colaborava na imprensa com trabalhos curtos, sem conteúdo prático, entretanto acreditava na revolução social para breve. Morreu acreditando nisso."
12 de novembro de 2009
11 de novembro de 2009
Leitura aconselhada
"Em 1910, a seguir à publicação de Anna Karenina e Guerra e Paz, Lev Tolstói é um dos autores mais famosos do mundo. Mas a fama tem um preço. Desesperado por encontrar paz no fim da vida, Tolstói fugiu de casa, abandonou a família, a sua mulher e os treze filhos, acabando por morrer sozinho numa cama numa pequena estação de comboios russa. Passado no tumultuoso último ano de vida do escritor, esta obra centra-se na luta pela alma de Tolstói. Baseado nos diários do escritor e dos que lhe eram próximos, incluindo a esposa, a filha e o médico, Jay Parini criou um romance histórico que, contado a diferentes vozes, combina factos e ficção. O leitor ficará a conhecer a relação tempestuosa do conde com a mulher, bem como a angústia mental do homem que professou as virtudes da pobreza e da castidade enquanto vivia uma vida de grandes privilégios. A tragédia de Tolstói é a de alguém cujo percurso foi marcado por contradições, podendo-se facilmente perceber por que motivo, nos últimos dias, ele se sentiu compelido a fugir para sempre da casa que conheceu desde a infância. Um retrato envolvente que certamente inspirará outras investigações às fontes originais, que permitiram a elaboração deste livro, revelando-se um trabalho incontornável para todos os que procurem saber mais sobre o mestre da literatura russa."
Tolstoi: outros adeptos portugueses

"Jaime de Magalhães Lima (Aveiro, 15 de Outubro de 1859 — Eixo (Aveiro), 26 de Fevereiro de 1936) foi um pensador, poeta, ensaísta e crítico literário português. Foi defensor e divulgador do vegetarianismo, do qual era adepto fervoroso". Mais aqui e aqui.
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