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4 de setembro de 2012

Excerto de "Os Caminhos da Anarquia", de M. Ricardo de Sousa

"(...) Vendo esse debate (1) à distância de um século, parece que Rossi (2) apontava um novo caminho que não chegou a ser explorado, quer pelas dificuldades conjunturais e pela fragilidade das diversas experiências da época, quer porque o otimismo reinante sobre uma Revolução imediata não motivava os militantes a seguir esse caminho. Em Portugal, só algumas vozes solitárias, como a de Gonçalves Correia, se aproximaram dessas ideias."


Excerto de "Os Caminhos da Anarquia. Uma Reflexão Sobre as Alternativas Libertárias em Tempos Sombrios", de M. Ricardo de Sousa (Letra Livre).


Notas:

(1) O debate a que se refere o autor refere-se à constituição de espaços de liberdade, auto-gestionários e autonomos (comunas), como territórios libertados do salariato e da propriedade privada, no seio da própria sociedade capitalista;
(2) Giovanni Rossi (1856-1943), anarquista italiano.

18 de julho de 2012

Comuna da Luz: o despertar da permacultura em Portugal

É um novo caminho que procurarei trilhar no quadro do estudo e da exploração do pensamento, vida e obra de António Gonçalves Correia: o estabelecimento de uma ligação concreta entre as experiências das comunas da Luz e Clarão com a ideia de permacultura.

Para os mais interessados fica desde já um interessante vídeo (brasileiro) sobre o tema:

Utopia no Quintal - Permacultura e Cidade from Fernando Moura on Vimeo.

19 de maio de 2012

Dois artigos no "Diário do Alentejo", que referem António Gonçalves Correia

#1

11 de novembro de 1918: Assinatura do Armistício que põe fim à 1.ª Guerra Mundial
14-11-2011


A notícia do armistício chegou célere a Beja. E assim que foi do conhecimento da cidade a suspensão das hostilidades por força da assinatura do armistício, o que ocorreu às cinco horas do dia 11 de novembro de 1918, logo, em Beja, um grupo de sócios da Sociedade Recreativa Artística Bejense organizou uma manifestação de júbilo, uma "marche aux flambeaux", como refere a imprensa da época, pelo fim da guerra. Portanto, uma enorme massa de povo saiu à rua, com entusiasmo, tendo à frente a filarmónica União Capricho e, assim, dando vivas ao exército, aos aliados, às nações vitoriosas, à Pátria e à República percorreu as principais ruas de Beja.

À noite, novo cortejo se organizou que, depois de voltar a percorrer as artérias da cidade, se veio a concentrar na praça da República onde de uma das janelas da Câmara Municipal falaram à multidão o presidente da Comissão Administrativa da edilidade, José Dias Rosa, Manuel Duarte Laranjo Gomes Palma, Santos Ferro e Gonçalves Correia, os quais saudaram as nações vitoriosas.

O curioso desta situação prende--se com o facto de Gonçalves Correia, anarquista de raiz tolstoiana e fundador da Comuna da Luz, em 1917, na herdade das Fornalhas Velhas, Vale de Santiago, ter sido poucos dias depois preso em Beja, mais concretamente a 29 de novembro, e enviado para a prisão do Limoeiro com a acusação de ser um dos organizadores, em Vale de Santiago, da greve geral decretada pela União Nacional, que se desenvolveu de 18 a 22 de novembro de 1918, e um dos impulsionadores dos assaltos aos celeiros dos lavradores que aqui ocorreram.

Ainda no âmbito das comemorações da assinatura do Armistício, em Beja, dia 14 de novembro, segundo a imprensa da época, foi distribuído um bodo a 1 050 pobres das quatro freguesias da cidade o qual constava de 500 gramas de carne de vaca, 100 gramas de toucinho, 250 gramas de arroz, 1 quilo de pão de trigo, meio litro de vinho e 20 centavos em dinheiro. A iniciativa do bodo partiu do governo civil e a distribuição destes géneros, adquiridos através duma subscrição pública, foi feita pelas juntas de paróquia das quatro freguesias.

Constantino Piçarra


#2


18 de Novembro de 1918: Greve geral com forte impacto em Vale de Santiago, concelho de Odemira

21-11-2011

Num contexto de forte agitação social contra a guerra e os seus efeitos, a que o governo da República responde com a suspensão das garantias constitucionais a 20 de maio de 1917 e Linka declaração do estado de sítio, em Lisboa, a 12 de julho, Sidónio Pais, a 5 de dezembro de 1917, avança para a revolução financiado pelos grandes proprietários agrícolas alentejanos, com o apoio do Partido Unionista.

O povo de Lisboa e parte do operariado estão com Sidónio, o que lhe garante a vitória. No entanto, este apoio inicial vai-se esboroando à medida que o governo sidonista vai desenvolvendo a sua acção. De tal maneira é assim que, a partir de março de 1918, o movimento popular e o operariado afastam-se de Sidónio e a contestação popular generaliza-se. Toda esta contestação vai culminar na marcação, pela União Operária Nacional, da greve geral de 18 de novembro de 1918. Esta greve que, de uma forma geral, se salda num fracasso vai ter uma forte adesão no distrito de Beja, mais concretamente em Vale de Santiago, concelho de Odemira. Aqui, de 18 a 22 de novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e à revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.

No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a "Comuna da Luz", mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro viajante, natural de São Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por 15 companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado.

Acusado de ser um dos instigadores da sublevação dos grevistas em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a "Comuna da Luz" é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território.

Constantino Piçarra

15 de setembro de 2011

A Comuna da Luz

9 de abril de 2011

Síntese biográfica de Gonçalves Correia

(do livro "A oposição libertária em Portugal, 1939-1974", de Edgar Rodrigues)


"Natural de Beja, chegou ao anarquismo para ficar.

Gosta de reunir-se, de falar e tinha "sonhos" de alcance impossível.

Gostava de comprar pássaros engaiolados para soltá-los, vê-los voar livremente, gorgitar de alegria.

Na sua caminhada como propagandista do anarquismo, escrevia e falava como um pregador que tenta convencer os seus paroquianos.

Fazia palestras para os camponeses a quem dedicou folhetos, tais como Estreia de um crente e deles merecia grande consideração e estima.

Mais tarde comprou uma grande área de terras e tentou por em prática a Comuna da Luz em Vale de Cavalos, em Odemira. Mas a ideia não foi avante tantos foram os obstáculos que se lhe opuseram.

Esses tipos de iniciativas têm sempre vários tipos de inimigos, mas um dos maiores é o próprio homem que delas participar. Preso a atavismos, a preconceitos e a hierarquias subjectivas, não tarda a desentender-se. Os "70 pecados capitais" herdados em arquétipos e absorvidos numa convivências diária com as outras vítimas da educação burguesa, condicionam o homem de tal forma que o seu "reaccionário interior" acaba por empurrá-lo para divergências fúteis mas ruinosas.

O anarquismo exige muito do ser humano e a sociedade burguesia e clerical, mercantilista e bélica, em que vivemos, de interesses e lucros, não nos prepara para sermos livres, vivermos livres, lado-a-lado com os nossos semelhantes. A liberdade externa só, não é o suficiente, e a interna custa a adquirir , é algo a ser cultivado com o tempo, o convívio, uma reeducação permanente, tal como a saúde e a vida.

Gonçalves Correia colaborava na imprensa com trabalhos curtos, sem conteúdo prático, entretanto acreditava na revolução social para breve. Morreu acreditando nisso."

11 de janeiro de 2011

Gonçalves Correia na "Itinerante"

A revista "Itinerante" - n.º4, relativa aos meses de Novembro de 2010 a Fevereiro de 2011 - publica mais um artigo dedicado à figura de José Júlio da Costa, a quem é atribuído o assassínio de Sidónio Pais. Neste artigo é referida a Comuna da Luz e é publicado um retrato de Gonçalves Correia.

Aceder ao artigo, em formato PDF, aqui.



10 de novembro de 2009

Comunas na Serra de Mértola

"(...) Em São Domingos, a questão da Serra de Mértola esteve no centro das preocupações e das lutas das populações de Corte Pinto e de Santana de Cambas, interessadas na partilha da Serra, mas também em impedir a apropriação pelos agrários. Neste processo estiveram envolvidos directamente os mineiros de São Domingos e os trabalhadores rurais do Pomarão e da Achada do Gamo, embora ignoremos em que medida isso terá pesado (se é que pesou) para minorar a fome na região. Para alguns comunistas libertários a partilha da Serra constituiu uma breve oportunidade para realizar, por breves instantes, uma experiência comunitária, na esteira da Comuna da Luz, do utópico Gonçalves Correia"
Excerto da obra "Indústria e conflito no meio rural - Os mineiros alentejanos (1858-1938)", de Paulo Eduardo Guimarães. Lisboa, Edições Colibri.

Mais sobre a Mina de São Domingos
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7 de novembro de 2009

Tolstoianismo

"Gonçalves Correia dá-me vontade de rir pela sua ingenuidade e tolstoianismo - mas acaba por se me impor. Este homem, que pretende realizar um sonho, dá a esse sonho tudo o que ganha, e, apesar da gedelha, das considerações ingénuas, faz-me pensar"

Raul Brandão, em "Os operários"
A Gonçalves Correia é, não raras vezes, atribuída a etiqueta de tolstoianista, ou discípulo da doutrina humanista de Leão Tolstoi, o escritor russo falecido em 1910, pouco antes da fundação da Comuna da Luz, em 1916.

Certamente que não foi, nem seria hoje, qualificação incomoda para o velho anarquista, que se leu Tolstoi - e certamente leu - encontrou em várias passagens dos seus romances, e em particular nalgumas personagens, comportamentos e visões da vida bem próximas daquelas que defendia: a vida simples, o desprezo pela vida frenética das cidades por oposição à proximidade com a natureza, o pacifismo, o desprezo pela guerra e pelo confronto belicista, uma certa proximidade com um cristianismo primitivo e quase franciscano-espiritual, que encontra expressão no seu poema "O meu Deus".

Sobre o modo de vida da Comuna se pode ler no artigo "Impressões da Comuna", datado de 30/1/1916 e incluindo no período "A Questão Social". A propriedade colectiva, o socialismo prático e a concretização, num naco de terra, de um ideal fraterno fazem Gonçalves Correia transbordar de alegria, num texto exclamativo, que merece aliás réplica por parte de um seu camarada anarquista, Miguel Correia, o qual mais pragmático adverte que "nas suas impressões não transparece a vida económica da Comuna".

Estou certo de que Gonçalves Correia não desprezava, nem negligenciava, nenhuma dimensão material da Comuna. Em todo o caso seria sempre o maravilhoso desconhecido, imaterial, que mais o motivava a insistir no projecto, a não deixar morrer o "Éden" criado a 3 quilómetros apenas das trevas e da "estrada do crime".

Tal como Tolstoi, Gonçalves Correia viria a morrer profundamente afectado por uma terrível depressão. As suas causas? Apenas posso especular. Mas não me custa acreditar que a ditadura fascista e o fracasso dos seus projectos, esmagados pela ignorância e repressão dos homens, lhe tivessem imposto a tristeza crónica que carregava em si.

* * *

Leão Tolstoi, 9/11/1828 - 20/11/1910. Escritor russo. Autor de grandes clássicos da literatura universal, como "Anna Karenina", "Guerra e Paz" e "Cossacos"


Leão Tolstoi, em 1908.

* * *

Ainda no que se refere ao tolstoianismo (embora solitário, neste caso), recomendo vivamente a leitura do livro "O lado selvagem" de Jon Krakauer, traduzido para português europeu e editado em Portugal pela Presença.



Trata-se de uma breve biografia de Christopher McCandless (na fotografia em cima), o jovem norte-americano que, em larga medida inspirado no tolstoianismo (bem como na obra ficcional de Jack London), deixou para trás o "conforto" do dia-a-dia das grandes cidades para abraçar uma vida errante e lançar-se ao grande desafio do Norte para os aventureiros solitários, o Alasca.

6 de novembro de 2009

Gonçalves Correia na obra "Os Operários"

António Gonçalves Correia é por diversas vezes mencionado por Raul Brandão na sua obra "Os Operários". Brandão dedica-lhe mesmo um capítulo ("Uma comuna no Alentejo"). Para aceder a todas as referências a Gonçalves Correia em "Os Operários", clique aqui.

Artigos na rede

"Comuna da Luz (em Odemira) e a Comuna Clarão (em Sintra) foram as 1ªs comunidades portuguesas anarquistas-naturistas fundadas por A. Gonçalves Correia"
Fonte: Blogue Pimenta Negra.

"O Monte da Comuna"

Faixa n.º5 do CD "No Paraíso Real - tradição, revolta e utopia no Sul do País". Edição da Câmara Municipal de Castro Verde. Voz de Manuel António (n. 1934). Fornalhas Velhas, Concelho de Odemira, Distrito de Beja. 7 de Maio de 1999.

21 de agosto de 2009

"Uma comuna no Alentejo"

Capítulo XVI da obra "Os Operários" de Raul Brandão.
(clicar sobre as imagens para ampliar)










19 de agosto de 2009

Uma inesperada compra, no Funchal

Retido por umas horas no Funchal, após uma visita de médico para resolver uns assuntos profissionais, deparei-me numa livraria do centro da cidade com um livro que comprei sem pensar duas vezes, não tivesse abundantes referências a António Gonçalves Correia, o bisavô da minha mãe, meu trisavô, portanto.

António Gonçalves Correia foi uma figura ímpar da história alentejana do início do século XX. Anarquista por convicção, e humanista por natureza, devotou a sua vida a um género de pregação das virtudes humanas, da bondade do homem e das suas condições naturais para resolver as brutais contradições desta vida.

O livro, que ainda não comecei a ler, relaciona-o (e à Comuna da Luz, situada no Monte da Fornalha, em Odemira) com José Júlio Costa, o homem que matou o "presidente-rei" Sidónio Paes, a 14 de Dezembro de 1918. De acordo com os autores, a Comuna da Luz é um elemento chave na definição do futuro do país e da República. Estranhamente, pouco se tem investigado e escrito sobre o assunto específico desta comunidade de homens-livres de Odemira.

Voltarei ao assunto, depois de concluída a leitura. Tratou-se, de facto, de uma inesperada compra, aqui no Funchal, tão longe de Odemira.

(Texto publicado no Blogue "Fluir de Espumas")