["Cante Alentejano", texto publicado no jornal "Avante!", 19.01.2012]
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27 de novembro de 2014
27 de janeiro de 2012
"Cante Alentejano"
(Texto publicado no "Avante!", por Luísa Araújo)
Em 30 de Março de 2012 é entregue na UNESCO a candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade. (1)
De Serpa para o mundo, confirmando palavras de Fernando Lopes Graça: tem de ir ao coração do Alentejo, a Serpa e seu termo, quem quiser conhecer uma das mais genuínas e curiosas manifestações do génio do nosso povo.
A Câmara Municipal de Serpa inicia o processo na sequência da candidatura de Serpa à Rede de Cidades Criativas da UNESCO, no tema Música. A candidatura, segundo João Rocha, Presidente da Câmara, traduz o reconhecimento da importância fundamental do cante alentejano na história política, económica e social da região.
As condições prévias para o reconhecimento das formas culturais na lista da UNESCO são: que se trate de uma expressão cultural tradicional localmente reconhecida como valiosa; seja considerada pelas sociedades locais como um elemento importante da construção das suas identidades; que esteja em risco de se extinguir; que os portadores da tradição e os que a praticam se dediquem à sua salvaguarda.
É justo referir as palavras de João Rocha: se não fosse o trabalho de Giacometti muito do património do cante poderia estar perdido.
Têm enorme profundidade os objectivos desta candidatura: a relevância patrimonial do Cante Alentejano; o seu valor excepcional como símbolo identificador da região Alentejo e identitário dos alentejanos; o seu enraizamento profundo na tradição e história cultural do País; e a sua importância como fonte de inspiração e de troca intercultural entre povos e comunidades.
Há investigação sobre o Cante Alentejano em diversas áreas, inclusivamente em meios académicos. A candidatura incentivará investigação mais alargada. Por isso assume grande importância a Casa do Cante, iniciativa da CM de Serpa.
O Cante Alentejano enquadra-se nas principais polifonias europeias, como os cantos polifónicos sardos, corsos, croatas e georgianos. Sobre a sua origem há hipóteses diversas. Por exemplo, o Padre António Marvão e Fernando Lopes Graça colocam a teoria da origem sacra-cristã, atribuída aos frades da Serra de Ossa, que após frequentarem as escolas de polifonia clássica em Évora, no século XV, se terão deslocado para Serpa, onde fundaram o Convento dos Paulistas e as escolas de canto popular.
O povo alentejano é o mais «musical» da gente portuguesa … a sua temperamental espontaneidade lírica, ... leva a achar boas todas as ocasiões, todos os pretextos para dar largas à sua inata musicalidade, refere Fernando Lopes Graça. (2)
Tudo é pretexto para cantar
Um alentejano nunca canta sozinho (3). Tudo é pretexto para cantar. A terra, a rua, as casas. Campos, sementeiras, espigas, searas e ceifa. A azinheira, o sobreiro, a oliveira. A rua, o rio, a ribeira. A chuva, a seca, a secura. Minas e mineiros. Estações do ano, o dia, a noite, o sol, a lua. A beleza. Flores e animais. Amor, namoro e casamento. Festas. Felicidade e tristeza. Migração, emigração, partida e chegada. Saudade. Paz, guerra, guerra colonial. Despedida e morte. Exploração, fome, repressão e fascismo. Luta e vitórias. Liberdade, Revolução, Reforma Agrária. O Partido. A esperança e muito mais. Conta cada história. Canta estados de alma, conhecimento e dá consciência. Um cantar colectivo, de grupo unido.
Canta-se em qualquer lugar, no campo, taberna, venda, sociedade do povo, festas, praças. Antes do 25 de Abril chegaram a ser proibidos os cantares pelas ruas e vilas. Onde estiverem, na sua terra, na terra que os acolheu, no País ou no estrangeiro.
Homens e mulheres trabalhavam lado a lado. O Cante é misto, mas os grupos corais são predominantemente masculinos. Mas estão a proliferar grupos femininos. Com dinâmica, mulheres saem de casa, organizam-se e fazem renascer o Cante nas suas freguesias.
A Candidatura precisa do envolvimento dos grupos do Cante, enquanto detentores deste bem imaterial, da comunidade em geral, das câmaras municipais, juntas de Freguesia, Casas do Alentejo e Associações de Alentejanos.
Envolvimento e responsabilidade porque se trata não só de salvaguardar o património que tem passado e presente, mas que exige no presente e no futuro o respeito dos seus valores intrínsecos, a génese de inspiração dos seus conteúdos, sem pressões, sem repressão, sem instrumentalização pelos poderes instituídos.
O Cante é uma expressão cultural do povo alentejano.
_________
(1) Sítio da Candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.
(2) A Canção Popular Portuguesa em Fernando Lopes Graça. Caminho 2006
(3) Frase de José Saramago
Em 30 de Março de 2012 é entregue na UNESCO a candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade. (1)
De Serpa para o mundo, confirmando palavras de Fernando Lopes Graça: tem de ir ao coração do Alentejo, a Serpa e seu termo, quem quiser conhecer uma das mais genuínas e curiosas manifestações do génio do nosso povo.
A Câmara Municipal de Serpa inicia o processo na sequência da candidatura de Serpa à Rede de Cidades Criativas da UNESCO, no tema Música. A candidatura, segundo João Rocha, Presidente da Câmara, traduz o reconhecimento da importância fundamental do cante alentejano na história política, económica e social da região.
As condições prévias para o reconhecimento das formas culturais na lista da UNESCO são: que se trate de uma expressão cultural tradicional localmente reconhecida como valiosa; seja considerada pelas sociedades locais como um elemento importante da construção das suas identidades; que esteja em risco de se extinguir; que os portadores da tradição e os que a praticam se dediquem à sua salvaguarda.
É justo referir as palavras de João Rocha: se não fosse o trabalho de Giacometti muito do património do cante poderia estar perdido.
Têm enorme profundidade os objectivos desta candidatura: a relevância patrimonial do Cante Alentejano; o seu valor excepcional como símbolo identificador da região Alentejo e identitário dos alentejanos; o seu enraizamento profundo na tradição e história cultural do País; e a sua importância como fonte de inspiração e de troca intercultural entre povos e comunidades.
Há investigação sobre o Cante Alentejano em diversas áreas, inclusivamente em meios académicos. A candidatura incentivará investigação mais alargada. Por isso assume grande importância a Casa do Cante, iniciativa da CM de Serpa.
O Cante Alentejano enquadra-se nas principais polifonias europeias, como os cantos polifónicos sardos, corsos, croatas e georgianos. Sobre a sua origem há hipóteses diversas. Por exemplo, o Padre António Marvão e Fernando Lopes Graça colocam a teoria da origem sacra-cristã, atribuída aos frades da Serra de Ossa, que após frequentarem as escolas de polifonia clássica em Évora, no século XV, se terão deslocado para Serpa, onde fundaram o Convento dos Paulistas e as escolas de canto popular.
O povo alentejano é o mais «musical» da gente portuguesa … a sua temperamental espontaneidade lírica, ... leva a achar boas todas as ocasiões, todos os pretextos para dar largas à sua inata musicalidade, refere Fernando Lopes Graça. (2)
Tudo é pretexto para cantar
Um alentejano nunca canta sozinho (3). Tudo é pretexto para cantar. A terra, a rua, as casas. Campos, sementeiras, espigas, searas e ceifa. A azinheira, o sobreiro, a oliveira. A rua, o rio, a ribeira. A chuva, a seca, a secura. Minas e mineiros. Estações do ano, o dia, a noite, o sol, a lua. A beleza. Flores e animais. Amor, namoro e casamento. Festas. Felicidade e tristeza. Migração, emigração, partida e chegada. Saudade. Paz, guerra, guerra colonial. Despedida e morte. Exploração, fome, repressão e fascismo. Luta e vitórias. Liberdade, Revolução, Reforma Agrária. O Partido. A esperança e muito mais. Conta cada história. Canta estados de alma, conhecimento e dá consciência. Um cantar colectivo, de grupo unido.
Canta-se em qualquer lugar, no campo, taberna, venda, sociedade do povo, festas, praças. Antes do 25 de Abril chegaram a ser proibidos os cantares pelas ruas e vilas. Onde estiverem, na sua terra, na terra que os acolheu, no País ou no estrangeiro.
Homens e mulheres trabalhavam lado a lado. O Cante é misto, mas os grupos corais são predominantemente masculinos. Mas estão a proliferar grupos femininos. Com dinâmica, mulheres saem de casa, organizam-se e fazem renascer o Cante nas suas freguesias.
A Candidatura precisa do envolvimento dos grupos do Cante, enquanto detentores deste bem imaterial, da comunidade em geral, das câmaras municipais, juntas de Freguesia, Casas do Alentejo e Associações de Alentejanos.
Envolvimento e responsabilidade porque se trata não só de salvaguardar o património que tem passado e presente, mas que exige no presente e no futuro o respeito dos seus valores intrínsecos, a génese de inspiração dos seus conteúdos, sem pressões, sem repressão, sem instrumentalização pelos poderes instituídos.
O Cante é uma expressão cultural do povo alentejano.
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(1) Sítio da Candidatura do Cante Alentejano a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.
(2) A Canção Popular Portuguesa em Fernando Lopes Graça. Caminho 2006
(3) Frase de José Saramago
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