O artigo "escola proletária", da autoria de Gonçalves Correia, foi publicado em 1914, no n.º164 (ano IV, página 1) da publicação bejense "O Operário". A sua publicação neste blogue deve-se à gentileza da investigadora e professora Francisca Bicho, que actualizou a ortografia utilizada à época pelo anarquista alentejano.
ESCOLA PROLETÁRIA
por António Gonçalves Correia
Os trabalhadores de todo o mundo, sem dúvida pelo facto de falta de conhecimentos sobre formas de ensino, têm até hoje, na sua grande maioria, entregado os seus filhos à influência da Escola burguesa, parecendo-me que essa é uma das principais razões que retarda o advento da encantadora sociedade fraternal e justiceira por que pelejo com sincero entusiasmo.
A Escola proletária, que por proletários devia ser criada e que por proletários devia ser mantida, faz tanta falta como o pão que nos alimenta, e se até hoje se tem cometido o crime – e que tremendo crime! …de não lhe dedicar os carinhos de que ela necessita, outro rumo se deve seguir sem perda de tempo.
O Estado, que é em toda a parte, quer nas Repúblicas quer nas Monarquias, o bordão possante onde os grandes se amparam, e, ao mesmo tempo, o látego sempre rígido onde os humildes têm manchas do seu sangue generoso, lançou mão da Escola e esta é, o que todos nós sabemos.
Às crianças – arbustos flexíveis que facilmente se adaptam – não se ensina a verdade porque os professores, embora a conheçam e a queiram divulgar amplamente, têm receio – e justificado receio das iras brutalíssimas e arrogantes do patrão – Estado.
A mentira propaga-se, semeia-se no cérebro embrionário das crianças frequentadoras da Escola, e só mais tarde no Estado adulto, se observam os seus perniciosos efeitos.
A verdade não se ensina às pobres criancinhas por que desse ensino resultaria a que da rápida de todas as tiranias e de todos os privilégios. Não exagero. Faço uma afirmação verdadeira.
A Escola burguesa não é um templo de ciência. É um recinto onde se criam autómatos.
Ainda há pouco tempo, numa das mais pitorescas vilas deste Alentejo de fortunas acumuladas, eu observei este tristíssimo espectáculo:
A população escolar, formada militarmente defronte do edifício onde se deviam formar cérebros e corações, obedecia disciplinadamente aos gritos enérgicos e autoritários do professor – professor! … - que de látego em punho, qual domador de feras domesticadas, a preparava para a defesa da pátria …
Virão dizer-me, talvez, que nada há mais justo que a defesa da nossa pátria. Da nossa?
Mas então sempre será verdade que ela é para todos a mesma carinhosa mãe?
Terrível, bem terrível é a convencional mentira patriótica.
Em lugar da mentirosa Escola conservadora e reaccionária que o Estado mantém, deve surgir, cintilante e esplêndida, a Escola fraterna e humana criada pelo esforço dos trabalhadores.
Bem sei que esta obra, como todas aquelas onde a Liberdade pretende imperar, tem inimigos audaciosos e que, por isso mesmo, é difícil. Concordo que seja relativamente difícil. Mas como a palavra difícil não é sinónimo de impossível, segue-se que essa dificuldade pode desaparecer.
Que isto é um sonho, virão dizer-me os egoístas. Será.
Mas como a minha observação me tem demonstrado praticamente que os sonhos dum dia podem ser a realidade do dia seguinte, é este sonho tão lógico que oxalá muitos sonhadores vão aparecendo.
Pois que surja, que se crie em todo o mundo a Escola proletariana, igualitária e emancipadora, no intuito de, pela preparação cuidadosa e científica dos caracteres, dos cérebros e dos corações, fomentar a queda do velho mundo de iniquidades e de infâmias.
Os ignorantes, aqueles que, tendo uma regular educação física, têm uma falta lamentável de educação intelectual, virão dizer-me que essa Escola se não cria só com palavras e com a boa vontade.
Que essa Escola se não levanta porque o mundo há de ser assim toda a vida …
Isso sim! Toda a vida? Não! Nunca! Não o consentirá o progresso, não o tolerará a justiça!
Mas como criar a Escola proletária? Lutando, pois que sem luta não há vida.
Lutando em que campo? Primeiramente no campo económico. Depois no campo cientifico.
No campo económico? Sim, nas Associações de classe e nas cooperativas de produção e consumo.
É certo que a ala imensa e sofredora dos salariados não sabe o que isso queira dizer. Pois se não sabe, que aprenda. Desse saber virá a sua felicidade e a felicidade dos seus filhos.
Estão desorganizados e dormentes os proletários? Pois que se organizem e que durmam menos.
Que se associem e que lutem conscientemente. Desse esforço resultará todo o bem para a humanidade inteira, livre de grilhões que a prendam e de parasitas que suguem!
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21 de outubro de 2012
19 de maio de 2012
Dois artigos no "Diário do Alentejo", que referem António Gonçalves Correia
#1
11 de novembro de 1918: Assinatura do Armistício que põe fim à 1.ª Guerra Mundial
14-11-2011
A notícia do armistício chegou célere a Beja. E assim que foi do conhecimento da cidade a suspensão das hostilidades por força da assinatura do armistício, o que ocorreu às cinco horas do dia 11 de novembro de 1918, logo, em Beja, um grupo de sócios da Sociedade Recreativa Artística Bejense organizou uma manifestação de júbilo, uma "marche aux flambeaux", como refere a imprensa da época, pelo fim da guerra. Portanto, uma enorme massa de povo saiu à rua, com entusiasmo, tendo à frente a filarmónica União Capricho e, assim, dando vivas ao exército, aos aliados, às nações vitoriosas, à Pátria e à República percorreu as principais ruas de Beja.
À noite, novo cortejo se organizou que, depois de voltar a percorrer as artérias da cidade, se veio a concentrar na praça da República onde de uma das janelas da Câmara Municipal falaram à multidão o presidente da Comissão Administrativa da edilidade, José Dias Rosa, Manuel Duarte Laranjo Gomes Palma, Santos Ferro e Gonçalves Correia, os quais saudaram as nações vitoriosas.
O curioso desta situação prende--se com o facto de Gonçalves Correia, anarquista de raiz tolstoiana e fundador da Comuna da Luz, em 1917, na herdade das Fornalhas Velhas, Vale de Santiago, ter sido poucos dias depois preso em Beja, mais concretamente a 29 de novembro, e enviado para a prisão do Limoeiro com a acusação de ser um dos organizadores, em Vale de Santiago, da greve geral decretada pela União Nacional, que se desenvolveu de 18 a 22 de novembro de 1918, e um dos impulsionadores dos assaltos aos celeiros dos lavradores que aqui ocorreram.
Ainda no âmbito das comemorações da assinatura do Armistício, em Beja, dia 14 de novembro, segundo a imprensa da época, foi distribuído um bodo a 1 050 pobres das quatro freguesias da cidade o qual constava de 500 gramas de carne de vaca, 100 gramas de toucinho, 250 gramas de arroz, 1 quilo de pão de trigo, meio litro de vinho e 20 centavos em dinheiro. A iniciativa do bodo partiu do governo civil e a distribuição destes géneros, adquiridos através duma subscrição pública, foi feita pelas juntas de paróquia das quatro freguesias.
Constantino Piçarra
#2
18 de Novembro de 1918: Greve geral com forte impacto em Vale de Santiago, concelho de Odemira
21-11-2011
Num contexto de forte agitação social contra a guerra e os seus efeitos, a que o governo da República responde com a suspensão das garantias constitucionais a 20 de maio de 1917 e
a declaração do estado de sítio, em Lisboa, a 12 de julho, Sidónio Pais, a 5 de dezembro de 1917, avança para a revolução financiado pelos grandes proprietários agrícolas alentejanos, com o apoio do Partido Unionista.
O povo de Lisboa e parte do operariado estão com Sidónio, o que lhe garante a vitória. No entanto, este apoio inicial vai-se esboroando à medida que o governo sidonista vai desenvolvendo a sua acção. De tal maneira é assim que, a partir de março de 1918, o movimento popular e o operariado afastam-se de Sidónio e a contestação popular generaliza-se. Toda esta contestação vai culminar na marcação, pela União Operária Nacional, da greve geral de 18 de novembro de 1918. Esta greve que, de uma forma geral, se salda num fracasso vai ter uma forte adesão no distrito de Beja, mais concretamente em Vale de Santiago, concelho de Odemira. Aqui, de 18 a 22 de novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e à revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.
No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a "Comuna da Luz", mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro viajante, natural de São Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por 15 companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado.
Acusado de ser um dos instigadores da sublevação dos grevistas em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a "Comuna da Luz" é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território.
Constantino Piçarra
11 de novembro de 1918: Assinatura do Armistício que põe fim à 1.ª Guerra Mundial
14-11-2011
A notícia do armistício chegou célere a Beja. E assim que foi do conhecimento da cidade a suspensão das hostilidades por força da assinatura do armistício, o que ocorreu às cinco horas do dia 11 de novembro de 1918, logo, em Beja, um grupo de sócios da Sociedade Recreativa Artística Bejense organizou uma manifestação de júbilo, uma "marche aux flambeaux", como refere a imprensa da época, pelo fim da guerra. Portanto, uma enorme massa de povo saiu à rua, com entusiasmo, tendo à frente a filarmónica União Capricho e, assim, dando vivas ao exército, aos aliados, às nações vitoriosas, à Pátria e à República percorreu as principais ruas de Beja.
À noite, novo cortejo se organizou que, depois de voltar a percorrer as artérias da cidade, se veio a concentrar na praça da República onde de uma das janelas da Câmara Municipal falaram à multidão o presidente da Comissão Administrativa da edilidade, José Dias Rosa, Manuel Duarte Laranjo Gomes Palma, Santos Ferro e Gonçalves Correia, os quais saudaram as nações vitoriosas.
O curioso desta situação prende--se com o facto de Gonçalves Correia, anarquista de raiz tolstoiana e fundador da Comuna da Luz, em 1917, na herdade das Fornalhas Velhas, Vale de Santiago, ter sido poucos dias depois preso em Beja, mais concretamente a 29 de novembro, e enviado para a prisão do Limoeiro com a acusação de ser um dos organizadores, em Vale de Santiago, da greve geral decretada pela União Nacional, que se desenvolveu de 18 a 22 de novembro de 1918, e um dos impulsionadores dos assaltos aos celeiros dos lavradores que aqui ocorreram.
Ainda no âmbito das comemorações da assinatura do Armistício, em Beja, dia 14 de novembro, segundo a imprensa da época, foi distribuído um bodo a 1 050 pobres das quatro freguesias da cidade o qual constava de 500 gramas de carne de vaca, 100 gramas de toucinho, 250 gramas de arroz, 1 quilo de pão de trigo, meio litro de vinho e 20 centavos em dinheiro. A iniciativa do bodo partiu do governo civil e a distribuição destes géneros, adquiridos através duma subscrição pública, foi feita pelas juntas de paróquia das quatro freguesias.
Constantino Piçarra
#2
18 de Novembro de 1918: Greve geral com forte impacto em Vale de Santiago, concelho de Odemira
21-11-2011
Num contexto de forte agitação social contra a guerra e os seus efeitos, a que o governo da República responde com a suspensão das garantias constitucionais a 20 de maio de 1917 e
a declaração do estado de sítio, em Lisboa, a 12 de julho, Sidónio Pais, a 5 de dezembro de 1917, avança para a revolução financiado pelos grandes proprietários agrícolas alentejanos, com o apoio do Partido Unionista.O povo de Lisboa e parte do operariado estão com Sidónio, o que lhe garante a vitória. No entanto, este apoio inicial vai-se esboroando à medida que o governo sidonista vai desenvolvendo a sua acção. De tal maneira é assim que, a partir de março de 1918, o movimento popular e o operariado afastam-se de Sidónio e a contestação popular generaliza-se. Toda esta contestação vai culminar na marcação, pela União Operária Nacional, da greve geral de 18 de novembro de 1918. Esta greve que, de uma forma geral, se salda num fracasso vai ter uma forte adesão no distrito de Beja, mais concretamente em Vale de Santiago, concelho de Odemira. Aqui, de 18 a 22 de novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e à revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.
No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a "Comuna da Luz", mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro viajante, natural de São Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por 15 companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado.
Acusado de ser um dos instigadores da sublevação dos grevistas em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a "Comuna da Luz" é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território.
Constantino Piçarra
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