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17 de setembro de 2011

«Tártaro»

"(...) Depois de ter juntado um grande ramo de flores diversas, ia para casa quando descobri, num fosso, um maravilhoso cardo, carmesim, em plena flor, daquela espécie que entre nós se chama «tártaro» e que, durante a sega da erva, é sempre contornado com cuidado e, caso seja cortado sem querer, é tirado do feno pelos gadanheiros para não picar as mãos. Apeteceu-me colher no cardo e pô-lo no meio do ramo. Desci ao fosso e, depois de enxotar um abelhão felpudo que adormecera deleitosamente agarrado à flor, comecei a partir o caule. Muito difícil, porém: a haste não só picava por todos os lados, mesmo através do lenço com que eu tinha envolvido a mão, mas era também tão duro que lutei com ele uns cinco minutos, pelo menos, rasgando os filamentos um a um. Quando, por fim, arranquei a flor, a haste estava toda em farrapos e a flor já não parecia fresca nem bonita. Além disso, o seu aspecto tosco e berrante não condizia com as ternas flores com que eu compusera o ramo. Lamentei ter destruído inutilmente uma flor que, no seu lugar, era tão linda. Deitei-a fora. «É impressionante a força, a energia daquela flor - pensei, recordando o que me custara arrancá-la. - Lutou muito pela vida e vendeu-a caro.» (...)"


Leão Tolstoi, em "Hadji-Murat"
(mais sobre o livro)

14 de setembro de 2011

Escolas Novas vs. escola actual

Na escola de liberdade que tinha sido a Faculdade de Letras do Porto, aprendeu o respeito pela liberdade absoluta do homem que pensou poder materializar-se no movimento das escolas novas. Para tanto diz-nos Agostinho "As escolas realmente novas, as de um Tolstoi, as de um Sanderson, as de um Washburne, as de um Lightward, as de um Faria de Vasconcelos, as de uma Armanda Alberto são apenas relâmpagos de esperança, logo abafadas pelas realidades, dos sistemas económicos (...) dos sistemas políticos (...) das religiões instituídas e convencionais (...). Escolas de visionários, de anarquistas e de loucos: escolas em que a iniciativa é da criança, a que o adulto assiste e em que aprende, ou reaprende a ter imaginação, a criticar, a se integrar no jogo como num trabalho ou no trabalho como num jogo, a sonhar considerando o sonho como actividade necessária e legítima, numa palavra a ter todas as qualidade ques perturbariam a calculada e, o que supõem, segura vida dos desembargos do paço ou dos presídios supremos".



extraído do texto "Agostinho da Silva - Um pedagogo contemporâneo português em busca de uma educação para o futuro", por Artur Manuel Sarmento Manso (Universidade do Minho)

8 de outubro de 2010

13 de novembro de 2009

"Jaime de Magalhães Lima, discípulo de Tolstoi"


Sobre o Tolstoismo, e em particular a visão que dele teve Jaime de Magalhães Lima, aconselho a leitura do texto "Jaime de Magalhães Lima, discípulo de Tolstoi", de Jacinto do Prado Coelho, publicado na Separata - Memórias da Academia das Ciências Lisboa, Classe Letras, 20. Páginas 305-319. O texto diz respeito à sessão solene comemorativa do sesquincentenário do nascimento de Lev Tolstoi, em 12 de Outubro de 1978, o ano do meu nascimento.

11 de novembro de 2009

Leitura aconselhada



"Em 1910, a seguir à publicação de Anna Karenina e Guerra e Paz, Lev Tolstói é um dos autores mais famosos do mundo. Mas a fama tem um preço. Desesperado por encontrar paz no fim da vida, Tolstói fugiu de casa, abandonou a família, a sua mulher e os treze filhos, acabando por morrer sozinho numa cama numa pequena estação de comboios russa. Passado no tumultuoso último ano de vida do escritor, esta obra centra-se na luta pela alma de Tolstói. Baseado nos diários do escritor e dos que lhe eram próximos, incluindo a esposa, a filha e o médico, Jay Parini criou um romance histórico que, contado a diferentes vozes, combina factos e ficção. O leitor ficará a conhecer a relação tempestuosa do conde com a mulher, bem como a angústia mental do homem que professou as virtudes da pobreza e da castidade enquanto vivia uma vida de grandes privilégios. A tragédia de Tolstói é a de alguém cujo percurso foi marcado por contradições, podendo-se facilmente perceber por que motivo, nos últimos dias, ele se sentiu compelido a fugir para sempre da casa que conheceu desde a infância. Um retrato envolvente que certamente inspirará outras investigações às fontes originais, que permitiram a elaboração deste livro, revelando-se um trabalho incontornável para todos os que procurem saber mais sobre o mestre da literatura russa."

Tolstoi: outros adeptos portugueses



"Jaime de Magalhães Lima (Aveiro, 15 de Outubro de 1859 — Eixo (Aveiro), 26 de Fevereiro de 1936) foi um pensador, poeta, ensaísta e crítico literário português. Foi defensor e divulgador do vegetarianismo, do qual era adepto fervoroso". Mais aqui e aqui.

7 de novembro de 2009

Tolstoianismo

"Gonçalves Correia dá-me vontade de rir pela sua ingenuidade e tolstoianismo - mas acaba por se me impor. Este homem, que pretende realizar um sonho, dá a esse sonho tudo o que ganha, e, apesar da gedelha, das considerações ingénuas, faz-me pensar"

Raul Brandão, em "Os operários"
A Gonçalves Correia é, não raras vezes, atribuída a etiqueta de tolstoianista, ou discípulo da doutrina humanista de Leão Tolstoi, o escritor russo falecido em 1910, pouco antes da fundação da Comuna da Luz, em 1916.

Certamente que não foi, nem seria hoje, qualificação incomoda para o velho anarquista, que se leu Tolstoi - e certamente leu - encontrou em várias passagens dos seus romances, e em particular nalgumas personagens, comportamentos e visões da vida bem próximas daquelas que defendia: a vida simples, o desprezo pela vida frenética das cidades por oposição à proximidade com a natureza, o pacifismo, o desprezo pela guerra e pelo confronto belicista, uma certa proximidade com um cristianismo primitivo e quase franciscano-espiritual, que encontra expressão no seu poema "O meu Deus".

Sobre o modo de vida da Comuna se pode ler no artigo "Impressões da Comuna", datado de 30/1/1916 e incluindo no período "A Questão Social". A propriedade colectiva, o socialismo prático e a concretização, num naco de terra, de um ideal fraterno fazem Gonçalves Correia transbordar de alegria, num texto exclamativo, que merece aliás réplica por parte de um seu camarada anarquista, Miguel Correia, o qual mais pragmático adverte que "nas suas impressões não transparece a vida económica da Comuna".

Estou certo de que Gonçalves Correia não desprezava, nem negligenciava, nenhuma dimensão material da Comuna. Em todo o caso seria sempre o maravilhoso desconhecido, imaterial, que mais o motivava a insistir no projecto, a não deixar morrer o "Éden" criado a 3 quilómetros apenas das trevas e da "estrada do crime".

Tal como Tolstoi, Gonçalves Correia viria a morrer profundamente afectado por uma terrível depressão. As suas causas? Apenas posso especular. Mas não me custa acreditar que a ditadura fascista e o fracasso dos seus projectos, esmagados pela ignorância e repressão dos homens, lhe tivessem imposto a tristeza crónica que carregava em si.

* * *

Leão Tolstoi, 9/11/1828 - 20/11/1910. Escritor russo. Autor de grandes clássicos da literatura universal, como "Anna Karenina", "Guerra e Paz" e "Cossacos"


Leão Tolstoi, em 1908.

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Ainda no que se refere ao tolstoianismo (embora solitário, neste caso), recomendo vivamente a leitura do livro "O lado selvagem" de Jon Krakauer, traduzido para português europeu e editado em Portugal pela Presença.



Trata-se de uma breve biografia de Christopher McCandless (na fotografia em cima), o jovem norte-americano que, em larga medida inspirado no tolstoianismo (bem como na obra ficcional de Jack London), deixou para trás o "conforto" do dia-a-dia das grandes cidades para abraçar uma vida errante e lançar-se ao grande desafio do Norte para os aventureiros solitários, o Alasca.