Qual o papel do património libertário e sobretudo da sua ética de vida – entre nós pode servir de referência uma figura como A. Gonçalves Correia (1886-1967), discípulo do neo-franciscanismo de Tolstói – no novo paradigma civilizacional a que te referes?
O património libertário, quando se liberta do antropocentrismo e se torna verdadeiramente libertador, é fundamental. Vejo figuras como Gonçalves Correia, autor da conferência e opúsculo A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, como exemplos desse paradigma intemporal e futuro. Ser vegetariano, desviar a bicicleta para não esmagar as formigas, esperar que elas saíssem da bacia para lavar a cara, são exemplos dessa ética do respeito integral por todas as formas de vida de que carecemos urgentemente num planeta em que, devido às acções humanas, mais de 300 espécies animais e vegetais se extinguem diariamente. Com elas é uma parte de nós que a cada dia também morre. Não faz sentido proclamar-se libertário e defensor da igualdade sem estender esse igualitarismo a todos os seres. Sem isso, ficamos reféns da discriminação especista, afim ao racismo, ao sexismo e ao esclavagismo. Na cultura portuguesa, vejo outros ilustres exemplos do novo paradigma em Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho e Agostinho da Silva, entre outros.
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19 de julho de 2012
Ética da vida
António Gonçalves Correia é referido numa das questões colocadas por António Cândido Franco a Paulo Borges, em entrevista recentemente publicada no jornal libertário "A Batalha" (n.º250, VI Série, Ano XXXVIII):
3 de abril de 2012
"A Felicidade de todos os Seres na Sociedade Futura"
Palavras Necessárias
Hesitei um pouco relativamente à decisão de digitalizar e publicar, sem notas nem contextualização, este importante texto de António Gonçalves Correia, que serviu de base à sua intervenção no V Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado na cidade de Évora no já longínquo ano de 1922.
De facto ler "A felicidade de todos os seres na Sociedade Futura" é bem mais complicado do que possa parecer. Uma leitura apressada, preconceituosa, descontextualizada e/ou anacrónica poderá conduzir a conclusões precipitadas. É um risco que corremos.
Muitas e muitas pessoas têm-nos contactado por e-mail, pedindo informações acerca do livro. Se existe alguma edição recente, onde o poderão encontrar… A todas temos respondido com a promessa da disponibilização online desta 2ª edição de 1931.
Fica assim cumprida a promessa.
Penso que melhor seria publicar-se "A felicidade de todos os seres na Sociedade Futura" com notas explicativas. Admito todavia que as ditas notas pudessem interferir com a leitura de quem se interessa pela vida e obra de António Gonçalves Correia, perturbando-a.
O livro passa a encontrar-se disponível no espaço virtual.
Que vos seja útil.
http://antoniogoncalvescorreia.blogspot.com
Abril de 2012
Para aceder ao livro clicar aqui.
Hesitei um pouco relativamente à decisão de digitalizar e publicar, sem notas nem contextualização, este importante texto de António Gonçalves Correia, que serviu de base à sua intervenção no V Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado na cidade de Évora no já longínquo ano de 1922.
De facto ler "A felicidade de todos os seres na Sociedade Futura" é bem mais complicado do que possa parecer. Uma leitura apressada, preconceituosa, descontextualizada e/ou anacrónica poderá conduzir a conclusões precipitadas. É um risco que corremos.
Muitas e muitas pessoas têm-nos contactado por e-mail, pedindo informações acerca do livro. Se existe alguma edição recente, onde o poderão encontrar… A todas temos respondido com a promessa da disponibilização online desta 2ª edição de 1931.
Fica assim cumprida a promessa.
Penso que melhor seria publicar-se "A felicidade de todos os seres na Sociedade Futura" com notas explicativas. Admito todavia que as ditas notas pudessem interferir com a leitura de quem se interessa pela vida e obra de António Gonçalves Correia, perturbando-a.
O livro passa a encontrar-se disponível no espaço virtual.
Que vos seja útil.
http://antoniogoncalvescorreia.blogspot.com
Abril de 2012
Para aceder ao livro clicar aqui.
29 de dezembro de 2011
Prefácio da 2ª edição de "A felicidade de todos os seres na sociedade futura" (Janeiro de 1932)
MUITAS pessoas, referindo-se à esgotante actividade de certos militantes do campo social, costumam dizer:
- Aquilo é brotoeja que lhe passa com o tempo. O cansaço não se demorará. Além disso, aquela gritaria é porque lhe não acenaram ainda o apetecido osso…
Infelizmente é assim mesmo, quanto a certos indivíduos, quanto a muitos indivíduos . Mas o leitor bem sabe que em tudo na vida há excepções. E eu, perdoem-me a vaidade, quero entrar no número delas.
O tempo vai passando (e não é tão pouco como a muitos pode parecer, pois já oiço por vezes, junto a mim, ao mesmo tempo repletas de consolo e desalentadoras, as palavras avô! avô! ) e eu continuo a ser atacado, talvez com mais fúria, pela brotoeja do meu anarquismo impenitente.
Cansaço é coisa que não conheço, supondo até que, a exemplo de certas actividades conhecidas, a minha entrada em anos não diminuirá o labor social em que sempre me empenhei, devendo redobrar, se isso é possível, da minha parte, o ataque enérgico a uma sociedade gangrenada, apodrecida até ao ponto de se poder considerar especialista na produção de dor.
Hoje como há 9 anos, quando fiz a minha primeira conferência com o Garcia de Resende repleto de burgueses e operários, mantenho intactas as minhas crenças libertárias e sinto que o mundo se aproxima mais do monumental palácio da Ventura, tão apetecido por nós.
A dor, é certo, continua a esmagar os corações. A alegria, é incontestável, não deixa de ser ainda um sonho lindo, uma realidade distante.
A fome impera macabramente. A injustiça mantém-se por enquanto, dominadora.
O erro persiste. A tuberculose espreita, de bocarra escancarada. A taberna entrega anualmente milhares de seres à penitenciária. A lei continua a oprimir os fracos. Os opulentos oprimem os humildes. Os escritores d’alma sifilítica, os Albinos Forjaz , derramam por sobre as almas o veneno infame da sua prosa maldita. É certo, é incontestável.
Mas repare, leitor – Não tem já visto, deslumbrado, após uma noite de inclemência e horrores, de angústias indizíveis, de tormentos mortificantes, um lindo nascer de sol radioso, que nos transporta a alma às luminosas regiões da felicidade? Pois será assim, o Amanhã da Humanidade.
Após a noite trágica que é o mundo burguês, onde impera a lei , há-de aparecer o dia deslumbrante e veludíneo onde imperará a Anarquia.
Beja, Janeiro de 1932
Gonçalves Corrêa
- Aquilo é brotoeja que lhe passa com o tempo. O cansaço não se demorará. Além disso, aquela gritaria é porque lhe não acenaram ainda o apetecido osso…
Infelizmente é assim mesmo, quanto a certos indivíduos, quanto a muitos indivíduos . Mas o leitor bem sabe que em tudo na vida há excepções. E eu, perdoem-me a vaidade, quero entrar no número delas.
O tempo vai passando (e não é tão pouco como a muitos pode parecer, pois já oiço por vezes, junto a mim, ao mesmo tempo repletas de consolo e desalentadoras, as palavras avô! avô! ) e eu continuo a ser atacado, talvez com mais fúria, pela brotoeja do meu anarquismo impenitente.
Cansaço é coisa que não conheço, supondo até que, a exemplo de certas actividades conhecidas, a minha entrada em anos não diminuirá o labor social em que sempre me empenhei, devendo redobrar, se isso é possível, da minha parte, o ataque enérgico a uma sociedade gangrenada, apodrecida até ao ponto de se poder considerar especialista na produção de dor.
Hoje como há 9 anos, quando fiz a minha primeira conferência com o Garcia de Resende repleto de burgueses e operários, mantenho intactas as minhas crenças libertárias e sinto que o mundo se aproxima mais do monumental palácio da Ventura, tão apetecido por nós.
A dor, é certo, continua a esmagar os corações. A alegria, é incontestável, não deixa de ser ainda um sonho lindo, uma realidade distante.
A fome impera macabramente. A injustiça mantém-se por enquanto, dominadora.
O erro persiste. A tuberculose espreita, de bocarra escancarada. A taberna entrega anualmente milhares de seres à penitenciária. A lei continua a oprimir os fracos. Os opulentos oprimem os humildes. Os escritores d’alma sifilítica, os Albinos Forjaz , derramam por sobre as almas o veneno infame da sua prosa maldita. É certo, é incontestável.
Mas repare, leitor – Não tem já visto, deslumbrado, após uma noite de inclemência e horrores, de angústias indizíveis, de tormentos mortificantes, um lindo nascer de sol radioso, que nos transporta a alma às luminosas regiões da felicidade? Pois será assim, o Amanhã da Humanidade.
Após a noite trágica que é o mundo burguês, onde impera a lei , há-de aparecer o dia deslumbrante e veludíneo onde imperará a Anarquia.
Beja, Janeiro de 1932
Gonçalves Corrêa
16 de setembro de 2011
Algumas palavras
Prefácio da 1ª edição (de 1922) do opúsculo "A felicidade de todos os seres na sociedade futura"
Algumas palavras
ACABO de ler, rapidamente, de um fôlego, as palavras que Gonçalves Corrêa pronunciou em Évora após o Congresso dos Rurais naquela cidade realizado. O seu autor é conhecido pelas suas ideias e pela desassombrada e tenaz propaganda que delas faz. Dispensa por isso uma longa apresentação. Basta dizer-se – e é isso que convém acentuar – que ele veio atraído à sedutora verdade dos ideais que perfilha mais pelas solicitações do seu coração, do que pelas necessidades da sua inteligência ou do seu estômago. Por isso Gonçalves Corrêa ataca a sociedade com mais lirismo que precisão.
Na Conferência que os leitores vão analisar, finda a rápida leitura destas palavras, encontrarão uma exaltação sentimental, quase mística, expandindo-se sem ódio na sua crítica ao presente, sem dúvida na sua visão sobre o futuro.
Em Gonçalves Corrêa o crente supera, em muito, o convicto. Se não se afasta da verdade, se não receia profundar a triste realidade da vida e a estúpida brutalidade das coisas, contudo e visão profética do futuro é mais vigorosa que a sua crítica ao presente e as sias alusões demolidoras ao passado. Para o conferente que venha analisando, o mal é considerado mais como uma incoerência da alma humana, um atrofiamento do raciocínio do que uma realidade viva e descoroçoadora. Os homens, terão um dia, um dia que certamente chegará, esclarecedor e luminoso, que expurgará de tudo o que os impede de viver em justiça e beleza.
Vem agora a propósito colocar uma pergunta que numa época de tão profundo egoísmo e embrutecimento como esta, preocupação muitos corações e muitas inteligências: serão responsáveis os ideais que Gonçalves Corrêa preconiza? Não hesito em responder afirmativamente.
Por muito que pese aos pessimistas e a alguns cépticos o anarquismo há-de escrever na história humana, talvez, as suas mais belas páginas. A ideia de que a felicidade aumenta entre os homens quando eles cessem de se explorar mutuamente, vai entrando, lentamente mas profundamente, no espírito dos contemporâneos. A queda que não é tolice, nem audácia, anunciar para breve duma civilização contrária aos interesses e aos destinos humanos será um grande passo sobre o futuro. A sociedade humana que tem vivido sobre o arbítrio de uma minoria, terá fatalmente de se orientar na ciência e guiar-se pelas suas leis. Mas, quando substituirá a ciência o empirismo, a justiça a iniquidade, a liberdade a tirania? Eis uma interrogação a que só poderão responder os próprios homens, Da sua vontade depende a alvorada duma vida livre. E bem fazem os que, como Gonçalves Corrêa, semeiam sem a preocupação da data em que o fruto amadureça e se possa colher.
Cristiano Lima
(Jornalista, Chefe de Redacção d'A Batalha (1927) e, posteriormente, Director do Diário de Notícias)
ACABO de ler, rapidamente, de um fôlego, as palavras que Gonçalves Corrêa pronunciou em Évora após o Congresso dos Rurais naquela cidade realizado. O seu autor é conhecido pelas suas ideias e pela desassombrada e tenaz propaganda que delas faz. Dispensa por isso uma longa apresentação. Basta dizer-se – e é isso que convém acentuar – que ele veio atraído à sedutora verdade dos ideais que perfilha mais pelas solicitações do seu coração, do que pelas necessidades da sua inteligência ou do seu estômago. Por isso Gonçalves Corrêa ataca a sociedade com mais lirismo que precisão.
Na Conferência que os leitores vão analisar, finda a rápida leitura destas palavras, encontrarão uma exaltação sentimental, quase mística, expandindo-se sem ódio na sua crítica ao presente, sem dúvida na sua visão sobre o futuro.
Em Gonçalves Corrêa o crente supera, em muito, o convicto. Se não se afasta da verdade, se não receia profundar a triste realidade da vida e a estúpida brutalidade das coisas, contudo e visão profética do futuro é mais vigorosa que a sua crítica ao presente e as sias alusões demolidoras ao passado. Para o conferente que venha analisando, o mal é considerado mais como uma incoerência da alma humana, um atrofiamento do raciocínio do que uma realidade viva e descoroçoadora. Os homens, terão um dia, um dia que certamente chegará, esclarecedor e luminoso, que expurgará de tudo o que os impede de viver em justiça e beleza.
Vem agora a propósito colocar uma pergunta que numa época de tão profundo egoísmo e embrutecimento como esta, preocupação muitos corações e muitas inteligências: serão responsáveis os ideais que Gonçalves Corrêa preconiza? Não hesito em responder afirmativamente.
Por muito que pese aos pessimistas e a alguns cépticos o anarquismo há-de escrever na história humana, talvez, as suas mais belas páginas. A ideia de que a felicidade aumenta entre os homens quando eles cessem de se explorar mutuamente, vai entrando, lentamente mas profundamente, no espírito dos contemporâneos. A queda que não é tolice, nem audácia, anunciar para breve duma civilização contrária aos interesses e aos destinos humanos será um grande passo sobre o futuro. A sociedade humana que tem vivido sobre o arbítrio de uma minoria, terá fatalmente de se orientar na ciência e guiar-se pelas suas leis. Mas, quando substituirá a ciência o empirismo, a justiça a iniquidade, a liberdade a tirania? Eis uma interrogação a que só poderão responder os próprios homens, Da sua vontade depende a alvorada duma vida livre. E bem fazem os que, como Gonçalves Corrêa, semeiam sem a preocupação da data em que o fruto amadureça e se possa colher.
Cristiano Lima
(Jornalista, Chefe de Redacção d'A Batalha (1927) e, posteriormente, Director do Diário de Notícias)
"A felicidade de todos os seres na sociedade futura"
Apenas ontem, por circunstâncias da vida, o livrinho "A felicidade de todos os seres na sociedade futura", transcrição da Conferência realizada por António Gonçalves Correia após o V Congresso dos Trabalhadores Rurais (Évora, Teatro Garcia Resende, 16/12/1922), me chegou às mãos.
Li-o de uma assentada e reforcei a minha percepção da singularidade, modernidade e acerto de grande parte das perspectivas do velho anarquista para Portugal, país que já então atravessava um tempo de grandes incertezas - como hoje... - , e que conduziriam menos de quatro anos depois ao golpe militar de 28/05/1926, acontecimento de triste memória para o país e que inaugurou 48 anos de ditadura e fascismo.
Acredito, sinceramente, que "A felicidade de todos os seres na sociedade futura" goza de plena actualidade. E a vontade que tenho é começar a mexer-me para ver o "opúsculo" novamente editado, de preferência em edição fac-símile, com notas explicativas, ou introdução de contextualização, não obstante não existir, temo bem, melhor explicação para o contexto do livro que o momento presente.
Vale a pena ler "A felicidade de todos os seres na sociedade futura", asseguro-vos.
Li-o de uma assentada e reforcei a minha percepção da singularidade, modernidade e acerto de grande parte das perspectivas do velho anarquista para Portugal, país que já então atravessava um tempo de grandes incertezas - como hoje... - , e que conduziriam menos de quatro anos depois ao golpe militar de 28/05/1926, acontecimento de triste memória para o país e que inaugurou 48 anos de ditadura e fascismo.
Acredito, sinceramente, que "A felicidade de todos os seres na sociedade futura" goza de plena actualidade. E a vontade que tenho é começar a mexer-me para ver o "opúsculo" novamente editado, de preferência em edição fac-símile, com notas explicativas, ou introdução de contextualização, não obstante não existir, temo bem, melhor explicação para o contexto do livro que o momento presente.
Vale a pena ler "A felicidade de todos os seres na sociedade futura", asseguro-vos.
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